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LYGIA >> Sergio Geia




Aos domingos tomo café em uma padaria que fica ao lado de uma livraria. Da minha mesa vejo pessoas chegando e parando em frente à vitrine para observar os livros. Não são poucas as que cultivam esse hábito. Curioso: jovens, em sua maior parte. 

Poucas coisas me dão mais prazer que um livro em mãos, um lugar bem iluminado e arejado, uma boa história. Mas livro livro, ou seja, de carne e osso, você entende. Sou daqueles que igual a muitos tem um tesão pelo cheiro do papel, pelo tatear, pelo movimento de virar página ou voltar, a perspectiva de tê-lo em minha mesinha de cabeceira para, sempre que quiser, dar uma olhada. 

Talvez as livrarias não resistam, muitas estão fechando, mas o livro de papel, esse sim há de resistir. Muitos títulos que procuro numa livraria física, eu não encontro, só sob encomenda. No mundo virtual eu acho o que eu quero, comparo preços, peço, eles chegam até mim. Fácil; e paradoxal. Seria uma explicação para esse funeral coletivo de livrarias?

Noite passada terminei uma das delícias do universo ficcional chamada “A noite escura e mais eu”, de Lygia Fagundes Telles. Pecado mortal: é a primeira vez que leio Lygia. Espero que a autora me perdoe. A edição que tenho aqui é uma da Rocco, na verdade uma 4ª edição, publicada em 1998. 

Fui levado à curiosidade de ler Lygia graças a um conto chamado “Uma branca sombra pálida”. Nossa! Para mim, somente esse título já valeu a pena. Assistia a uma aula do Marcelino Freire num curso que ando fazendo sobre escrita literária, quando ele leu o primeiro parágrafo do conto. Vejam com seus próprios olhos essa delicadeza: 

Hoje fui ao túmulo de Gina e de longe já vi as rosas vermelhas espetadas na jarra do lado esquerdo, Oriana veio ontem. Não combinamos nada, é evidente, mas a jarra do lado esquerdo ficou sendo a dela, a jarra da direita é das minhas rosas brancas. Que já murcharam, as brancas duram menos. Acendi um cigarro. É proibido fumar, eu vi escrito por aí. E o que mais é proibido, viver? Fiquei um tempo olhando suas rosas vermelhonas, completamente desabrochadas. Um pouco mais de sol nessas corolas e em meio do perfume virá aquele cheiro que vem dos mortos quando também eles começam a amadurecer. Não nas narinas! eu disse. Fui buscar o corpo depois da autópsia, já não era mais a pequena Gina, agora era o corpo com aquele algodão atochado no nariz, Tira isso! O enfermeiro obedeceu apático, tudo na sala era assim neutro mas limpo. Sua filha? Ele perguntou. Fiz que sim com a cabeça e então me recomendou, Caso precise, a senhora depois arruma outro algodão. Não precisou, até o fim Gina ficou com suas narinas livres para voltar a respirar se quisesse. Não quis. Está certo, foi feita a sua vontade, ela era voluntariosa, quando resolvia uma coisa, hein? 

Quando ouvi Marcelino lendo esse pequeno trecho de “Uma branca sombra pálida” eu pirei. Mostrei para Chiara que também se emocionou. Não resisti. No mesmo dia comprei o livro. Chegou, eu devorei, descobrindo outras preciosidades e o talento dessa magistral escritora. 

Tenho que confessar também que o busquei a fim de realizar uma leitura intencionada, expressão que descobri outro dia graças a Luiz Antonio de Assis Brasil, aliás, coisa que sempre fiz: objetivava descobrir quais recursos Lygia manejou tão bem para atingir aquele resultado capaz de encantar a vida das pessoas. 

“A noite escura e mais eu” é uma obra de extrema beleza. Não são contos longos, ela os trabalha em terceira ou em primeira pessoa, explora questões humanas universais como a velhice, a doença, a morte. Para quem nunca leu Lygia, esse primeiro contato me provocou enorme emoção, e um desejo incontido de conhecer mais de sua vasta produção literária.

Comentários

João D'Olyveira disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
João D'Olyveira disse…
Grande Sérgio,
viagem interessante: da mesa para a livraria; da livraria para a juventude; da juventude para a repreensão e o resgate; do resgate para o oportuno abarrotamento; do abarrotamento para o repreender-se. E tudo quando "Lygiar" se apresentou como ação necessária. Bom domingo, bom café...muito bom!
sergio geia disse…
Valeu, João! Uma diva. Estava muitíssimo bem acompanhado
Albir disse…
Que beleza, Sergio! Fico aguardando novas dicas literárias.