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CENÁRIO >> Carla Dias >>


Não nasceu para isso. Fazer o quê? Enlouquecer é que não. Nasceu para outras coisas: inventar histórias, criar canções, reverberar ideias, apaziguar angústias. Mas onde mesmo isso tudo é poderoso o suficiente para se colocar acima dos boletos vencidos e das tragédias diárias que assolam salas de espera e estações do ano? Nem precisam ser dele, as tais tragédias. Ele as identifica onde estiver, basta dar liberdade à própria atenção, que, insolente, às vezes o leva aos prantos, transformando-o em espectador impotente.

O mundo lhe causa espanto. Não sabe lidar com ele e a diversidade de suas camadas de desencantamento e luxurioso contentamento. Não irá chorar por perdas reversíveis. Não gastará seu pranto com construções alicerçadas em frágeis terrenos. O que realmente lamenta é a indiferença. Indiferença fere seu espírito, insulta sua existência. Ele enxerga na indiferença uma poderosa maneira de se liquidar felicidade.

É um pouco daquilo que seu avô costumava dizer, um cigarro apagado entre os lábios, a sobrancelha arqueada: matamos a felicidade de tédio, de tanta preguiça que temos de nos importarmos com a sua origem, com a sua jornada, com o seu desfecho, e, principalmente, com a incapacidade dela de durar para sempre.

Ele concluiu, depois de uma vida, que é assim também que se mata o afeto. Imaginando-o outro, menos melhor do que poderia ser.

Ele aprecia a felicidade com certa melancolia, porque sabe que ela vem seguida por uma porção de desalentos, e nem sempre se sente forte o suficiente para lidar com eles. Incomoda-se com o sentir-se frágil, como se nada pudesse ser feito para evitar a sua inutilidade diante do corrido.

Ocorre agora que ele observa o mundo, esse pequeno trecho do mundo, ligado por uma avenida larga e barulhenta. Urgências são espalhadas por esse pedaço de tempo, cravado neste perímetro do universo, onde pessoas se deslocam de lá para cá com a pressa de quem tem de chegar. 

Tem mesmo? 
Chegará lá? 
Onde?

Desoladora é essa paisagem, onde tudo se move freneticamente. Onde todos se movem freneticamente. Onde a vida perde o fôlego e não tem chance de recuperá-lo, até que tenha de se arrastar, como se carregasse toneladas de universos nas costas, o ritmo cadenciado pela sofreguidão do passo depois do outro, que leva a lugar nenhum.

Fica lá o onde?
No lugar nenhum?

O onde, que ele acessa para se salvar de sentir indiferença por si mesmo, é um lugar que acomoda sua singela capacidade de se ausentar do agora em nome da cumplicidade com seus sentidos. Ele tem suas urgências. Ele provoca correrias, exaltação, excessos. Porém, ele sabe quando é preciso parar e se recompor, diante do caos. 

Dentro dele moram muitas paisagens. Acredita que essa é a sua boa sorte. Dentro dele residem mil monstros, que o ensinam a pessoa que ele não deseja ser. Dentro dele vivem extravagâncias emocionais e sonhos delirantes, como este que o toma no instante agora: o onde habitado pelo silêncio, pela leveza, pela beleza da solidão escolhida.

Foto © Pedro Bicudo | pedrobicudo.myportfolio.com

carladias.com
baseadoempalavrasnaoditas

Comentários

branco disse…
sua crônica: bela como sem, talento sem limites e aumentando e aumentando.
é bom observar o outro que existe em si ou triste observar o outro que existe em si ou ainda, apenas observar e saber que apenas é.
Carla Dias disse…
Branco, obrigada, obrigada, obrigada. Seus comentários sempre me inspiram a continuar descobrindo caminhos para as palavras. Abraço!
Albir disse…
Inadequação, estranheza e solidão acompanham o artista na obrigatoriedade da caixa. Fazem parte do pacote.
Carla Dias disse…
Concordo, Albir. Ainda bem que aprendemos a mergulhar nesses cenários e a sair deles, quando precisamos de pausa.