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MANHÃ >> Whisner Fraga

a menina ensaca o estojo.

a mochila é à toa e a menina espicha o braço para encaixar a alça no ombro.

estilhaços de sono reluzem uma melancolia desconhecida.

a menina reclama e eu aponto uma manhã só de brincadeiras.

a preguiça vai murchando.

a menina equilibra o pão entre os dentes enquanto amarra o cadarço.

estamos quase atrasados, mas sempre há tempo para uma última objeção:

posso faltar hoje?

não pode, menina.

que tal se apanharmos uma semente no caminho?

que tal se a plantássemos e vigiássemos o vaso até o enigma do nascimento?

que tal se fizéssemos a lista do que mais amamos?

e o elevador já ruge em nosso andar.

a menina me lança a mão e eu acolho aquela alegria embrionária.

ajeito-lhe a camiseta, a franja, a alça e podemos caminhar.

eu queria dizer a ela para não ir à escola, que é melhor dormir um pouco mais, que é melhor ficar na cama enquanto emboscamos o mal se infiltrando na vida.

mas ela tem de ir.

Comentários

Sandra Modesto disse…
Um texto escrito em cenas. Na real, uma crônica e da boa. Adorei. Abraços.
Carla Dias disse…
Gosto muito como o texto é finalizado: "mas ela tem de ir". É a questão do "apesar de desejarmos, não podemos". Há uma fase na vida da gente em que isso é fato. Mais tarde (mais velhos), torna-se maleável, porque já não temos mais tanto fôlego para manter o que permite brechas para o talvez.
Zoraya Cesar disse…
é melhor ficar na cama enquanto emboscamos o mal se infiltrando na vida.

Ficou tão maravilhoso, Whisner! Tudo. Flutuei nas suas palavras.

E me fez lembrar uma crônica também maravilhosa do Fernando Sabino, que eu fiz o favor de esquecer o título, na qual a filha mais nova finge estar com dor para não ir à escola, depois confessa que era mentira. E os dois passam um dia memorável.

Amei.
Albir disse…
Estou ficando leitor dessa menina!