quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

BEIJE ATÉ... >> Carla Dias >>


Há esse momento em que tudo anda tudo demais. A capacidade de observar e compreender se perde em uma insistência voraz em explicar. A necessidade de explicar o que não nos cabe é de tomar espaço imenso na nossa percepção. Por exemplo, agora, nesse momento, meu tudo está tão tudo, agindo feito uma microfonia que já dura horas. Aguda, capaz de minar qualquer paciência.

Em momento feito este, eu escrevo. Algumas linhas. Alguns versos. Alguns pensamentos. Alguma piada mal construída, que não nasci com dom de fazer graça da forma sagaz que aprecio. Escrever me ajuda a abaixar esse volume, até que ele se canse de mim, do meu silêncio, e me perceba inóspita. Vá embora.

Dia desses eu estava no ônibus e entrou uma mulher com seu filho, um menino de quatro, cinco anos de idade. Enquanto esperávamos o motorista voltar de seu intervalo e nos levar para casa, esse menino insistia em beijar a mãe. Quando ela disse que já bastava de beijos, que ele tinha de se aquietar, o menino, com a voz mais doce que conseguiu entoar, disse que dentro da cabeça dele havia uma voz que mandava ele beijá-la mais e mais. E seguiu dizendo o quando amava a mãe, logo perguntando o motivo de eles estarem no mundo. A mãe explicou que eles foram colocados aqui, porque o planeta precisava de pessoas.

Intrometida, só consegui fazer uma pergunta a mim mesma: precisava mesmo?

Sempre que essa microfonia invade minha cabeça, fragilizando minha capacidade de compreender que nem todos estão sintonizados na mesma estação que a minha, silencio. Apesar dos barulhos da rua, dos telefones celulares distribuindo seus diferente ringtones, das conversas em ônibus entre mães cansadas em fim de tarde de domingo e crianças curiosas, inquiridoras, incapazes de pararem de falar, porque as vozes, as suas próprias vozes, ecoam estrambóticas em suas cabeças. E as pessoas que, usando seus fones de ouvido, nem dando chance de seus espectadores se tornarem seus ouvintes, dançam, numa coreografia ocupadora de um bom espaço, na fila do supermercado.

Quando tudo anda tudo demais, você acaba ganhando, daqueles que fazem parte da sua história, alguns adjetivos que não lhe agradam muito, mesmo sabendo que eles são tão transitórios quanto seu momento de dar mais crédito a si mesmo, e ao que sente, do que deveria. Mas faz parte do processo, certo? O processo de compreensão de que a vida não está nem aí para seus dramas particulares. Ela não quer saber se você está preocupada com as contas, com as mudanças impostas, com quem lhe quer bem ou mal ou nem mesmo lhe quer. Ela não se importa se seus cabelos estão horríveis, não tem vaga para seu filho na escola, seu bairro anda mais perigoso que nunca. A vida é o que há de mais independente. E o mais curioso de tudo é que todos nós a temos e insistimos em criar prisões particulares.

Acredito que o sentido está em ser fase e ela passar. O zumbido some, você relaxa. A vida, a sua, não a vida mãe de todas as vidas, ou seja lá como você enxergue a existência, bem, ela volta aos eixos, ameniza. Haverá sempre um período em que nos sentiremos capazes de nos identificarmos com a paz de espírito. E nós os alimentaremos com histórias para guardar em álbum, consultar em dias menos brandos.

No meu caso, devo aceitar que compreendo perfeitamente o que aquele menino disse. Para mim não passou, mas espero que para ele passe. Minha voz continua ecoando na minha cabeça, como se fosse outra pessoa, outras. Ecos de quem fui, de quem sou, de quem jamais serei. Um baile dos falantes, questionadores, preocupados, que vivem pedindo para que, independentemente das broncas da vida, que eu a beije, até ela se desmanchar de tanto carinho.

Enfim, não me cabe explicar. Explicar-me. Não hoje.

Imagem © Pietro Torrini

carladias.com




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2 comentários:

Anônimo disse...

Querida Carla,

Tua resposta ao meu outro comentário, feito em uma crônica publicada por volta de um mês atrás, alterou, de fato, minha percepção da vida.
Amanhã, a FUVEST publicará a lista dos aprovados nos seus tão prestigiados cursos de graduação.
Serei sincero: a ansiedade que eu tinha em ler meu nome naquela lista foi muito maior e muito mais intensa nos ano passado, do que está sendo hoje.
Pretendia fazer direito, estudei um ano inteiro disciplinas na área de humanidades.
E, então, cá estou eu arrumando minhas coisas rumo a uma cidade no triângulo mineiro cursar Engenharia Aeronáutica, e admito: nunca estive tão feliz.
Sinceramente, não sei o que me fez mudar tanto.
Junto com minha maioridade (que sinceramente não trouxe grandes mudanças em minha vida) eu aprendi a abrir mão dos fones de ouvido, os meus quebraram, e nunca achei tão esplêndido poder ouvir a cidade em que vivo.
Enfim, até em um romance de verão estou.

Muito grato por sua resposta ao outro comentário,


Um futuro estudando de eng. aeronáutica.

Carla Dias disse...

Meu caro futuro estudante de engenharia aeronáutica,

Percepção é algo tão importante, não? Mas é isso... O olhar muda, a rota é refeita, de acordo com o tempo e as possibilidades. Com um pouco de paciência e muita dedicação, corre-se até o risco de se cometer realizações.

Por favor, volte e me conte como andam as coisas, quando der vontade.

Que você possa escutar muitos sons nessa vida, daqueles de emocionar e trazer plenitude.

Que haja romance, e então, amor.

Que a vida lhe cuide bem. Que você cuide bem dela.

Abraço.