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O AVESSO DA ADOLESCÊNCIA >> Cristiana Moura


Ainda ontem minha comadre comentava: " — Ao olhar-me, vejo que o viço da juventude foi maculado no reflexo do espelho." Tempo. Alguns hormônios declinam, outros nem sei. Tem horas, muitas horas mesmo, em que é como nadar, em dia de sol a pino, num mar de TPM. Então chega aquele dia em que se sangra e, junto com isto lembramos a crença de que vai passar o rebuliço corpo-a-dentro e, que como antes, a menstruação, apesar das cólicas, trará cores mais vívidas ao cotidiano. Não. Nenhuma ilha por perto. Um calor de dentro para fora num fogacho. A vida é nadar neste mar revolto de hormônios descontínuos, sensibilidade à flor da pele, chorar com o sorriso da criança, gritar com um objeto inanimado da casa, desejar e temer as carícias, morrer de saudades.

Bem vinda ao climatério, período que antecede a menopausa. Meno – pausa. Exato. Esta é a vontade mais íntima e absurda: a vida poderia parar a fim de vivermos este momento, apenas este. E, só mais adiante, continuar.

É experimento no próprio corpo. Modificações da matéria viva que somos. Reaprender o tamanho dos peitos, a textura da pele, a umidade da vagina. É a certeza sensorial da finitude. Como um luto belo de quem já tem muitas histórias para contar, e as possibilidades por vir são morada de desejos e expectativas. É gostar da memória juvenil, mas sem nostalgia. Foi bom, agora o tempo é outro. Tempo de doçura e graciosidade ainda por se desenhar em linhas ora sutis, ora densas e turbulentas.

 É como ter quinze anos de novo só que pelo avesso. E, de repente, dar-se conta que, já há algum tempo, não se tem mais interesse pelas bonecas. É um momento de amar a idade mas nem sempre querer revelá-la. Isto para não correr o risco de precisar caber em estereótipos do que se deveria viver a cada estação da vida. Somos uma geração de mulheres sem idade. Na adolescência buscamos o grupo. No seu avesso — o recolhimento.

O filho canta: “— Mamãe, mamãe não chore. A vida é mesmo assim, eu fui embora (...) eu tenho um beijo preso na garganta, eu tenho um jeito de quem não se espanta (...),  ser mãe é desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos. Seja feliz, seja feliz. Mamãe, mamãe, não chore...”*

Aos sons da música e da ausência de Gabriel pintei a parede com as mãos e comprei novas almofadas. Outras cores e tons tentando reinventar a beleza e aconchego dos seus sons.

No reflexo da juventude maculada pelo tempo enxergo-me mais bela. É tanta a fortaleza que vejo nas novas fragilidades. Isto deve ser a tal sabedoria anunciando que está por chegar e que é transparente. O corpo muda, o amor renasce, o desconhecido já não é o outro sou eu mesma. Nada merece ser adiado.

Quero é dançar como se cada gesto movesse o planeta inteiro. Gosto mesmo é dos cabelos brancos por entre os negros. Parecem iluminar pensamentos e emaranhados de vida descompassada no tempo.



* Trecho da música Mamãe Coragem de Torquato Neto

Imagem: Das Estratégias Para Me Ver Melhor de Cristiana Moura

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