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AQUELE MENINO >> Carla Dias >>


O menino olha para o mundo com curiosidade aguçada. Quer saber. Quer descobrir. Quer aprender. Sente a necessidade de se conectar ao todo, mas não ao um, que ele sabe como ser sozinho nesse mundo que observa. Tem sido educado a estar só, desde sempre.

Sabe coisas de astronomia, decorou rotas e diálogos de filmes de antigamente. Conhece muito disso e daquilo, sobre robótica, culinária. Tem apreço pelos mistérios do DNA.

Acontece de ser solitário o incomodar. Então, ele coloca sua mente para apaziguar coração agoniado, enquanto aprende outro idioma, outro caminho, outro sentido, outra busca. Deseja descobrir o segredo para se resgatar de si. 

Não tem medo dos cortejos. Histórias macabras o divertem com a mesma intensidade que a dor do outro o entristece. Mergulhar em rios o acalma. Assistir às pessoas transitarem pela cidade o inquieta.

Sabe algumas palavras raramente usadas. Sente desejos complexos. Agrada-lhe - com profundidade mais adulta que ele - ser conhecedor de um e outro assunto que poucos desejam conhecer, por preguiça, medo, decoro, religiosidade moldada.

O silêncio o conforta, assim como cômodos da casa vazios.  Ele imagina esse espaço propício ao eco, enquanto a família se reúne para um café, na sala de estar. O que gritaria em eco? Por que gritaria?

A mãe lhe beija a testa. Menino é grato por tanto amor que lhe oferecem. Porém, vive nele essa inquietude, desde que ele se fez pessoa, nascendo nesse mundo. Ele sabe que irá partir o coração de seus afetos. Isso o entristece. Ele sabe que é algo que não há como ser evitado.

Lembra-se do primeiro sonho que teve, ainda nem sabia falar. Sonhou com essa aventura fantástica, sendo vivida na liberdade mais plena. Sonhou com a vida das descobertas, da intensidade dos seus sons, sabores e odores, e os pés em lugares que não sabe nem onde ficam.

Há tanta curiosidade vivendo nele, que, às vezes, ele se pega conversando com ela, como se discutisse seriedades com outra pessoa. Há tanto mundo dentro dele, que, às vezes, ele se sente transbordando de tanta variedade emocional. Então, desespera-se, até que a calma chegue e ele retome o devaneio.

O menino sabe que veio ao mundo assim, deslocado. Isso não o aflige. O que o aflige mesmo é a insistência de tantos em tentar padronizar seus anseios. Mas ele é paciente, já fez plano. Vai esperar a vida espichá-lo, oferecer-lhe o R.G. e a maioridade, para então se aventurar por ele, para além das janelas e da inflexibilidade dos sonhos.

Porque nasceu sonhando com fluidez.

Medo mesmo, daqueles que fragilizam, ele sente de se esquecer de si, como viu acontecer com o avô. De sumir, aos poucos. De se tornar indetectável pela felicidade. Obsoleto para a rotina. Esse medo ele gostaria de trocar por uma brincadeira, uma alegoria, pela sua condição de criança. Mas o que fazer se nasceu menino voltado às seriedades e aos devaneios? Daqueles que se encantam pelas descobertas da medicina, que espera por líderes justos, que se maravilha com a alegria do outro.


carladias.com

Comentários

Danton B.M. disse…
Querida Carla,

Encontro-me contendo as lágrimas depois de ter lido teu texto. Ironicamente, completei a maioridade um dia depois de publicá-lo, mas só tive a oportunidade de lê-lo agora.
Nunca estive tão perdido entre os desejos, que, no passado, almejava, mas agora percebo estarem bem mais longe do eu realmente gostaria.
Sinto-me completamente desconectado do meu próprio Eu.

Grato pelas belas palavras,

Um garoto com 18 anos.
Carla Dias disse…
Querido Danton,

Sentir-se perdido, vez ou outra, faz parte do roteiro de ser pessoa. Não se assuste com isso, apenas preste atenção ao que o cerca. Aproveite o que a vida lhe oferece, enquanto se encontra no mundo.
Posso lhe dizer, já bem além dos meus dezoito anos, que desejos são tão flexíveis, e isso é bom, é bonito, acontece de eles se tornarem mais ricos e dignos da realização do que os originais.
Não há receita para se levar a vida. A melhor forma de aproveitá-la e aprender com ela - e sua jornada está apenas começando - é se conectar a ela. A vida vai lhe acontecer e você irá se descobrir durante o caminho.

Fique bem. Volte sempre. Conte como anda sua jornada.

Abraço.
Zoraya Cesar disse…
Carla, ainda vamos contratar alguém para coletar e editar um livro só com suas fraases magníficas. "De se tornar indetectável pela felicidade. Obsoleto para a rotina. Esse medo ele gostaria de trocar por uma brincadeira, uma alegoria, pela sua condição de criança." é mais uma para a coleção. Princesa do Lirismo!

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