sábado, 13 de janeiro de 2018

LINDA ROSA, KIARI, GADÚ >> Sergio Geia



Suave, ela me encanta; e me encantou desde logo. Na primeira vez, pensei: “roupa nova, canção velha.” O mesmo pensamento do Juarez, de Manaus, que disse: “Letra encaixada, requintes de poesia das antigas.”
Contralto (ou mezzo?), a voz de Gadú amplifica o poder da poesia, e Linda Rosa me encanta: “Pior que o melhor de dois / Melhor do que sofrer depois / Se é isso que me tem ao certo / A moça de sorriso aberto / Ingênua de vestido assusta / afasta-me do ego imposto / ouvinte claro, brilho no rosto / abandonada por falta de gosto”, e não me deixa dormir.
Acordo no meio da noite e fico a cantar. Não cantar assim, cantando, cantando, soltando a voz; a música, essa poderosa magia, ela é que canta em mim. E não para. Termina, recomeça, termina, recomeça, cantando e me encantando, me subtraindo o sono, a voz da Gadú.
Num show, ladeando Leandro Leo, sorridente, linda (eu nunca a vi mais linda), feliz, ela empresta sua voz, traduzindo essa delícia: “Escolha feita inconsciente / De coração não mais roubado / Homem feliz, mulher carente / A linda rosa perdeu pro cravo”, eu sem compreensão, sem entender o intraduzível, a letra encaixada, a poesia, extasiado de tanta beleza, quase choro de alegria.
Nossa!
Respira, penso. Respira.
Mas afinal de contas, Gadú, o que passas com Linda Rosa?
Por partes. A música não é das antigas com roupagem nova, é nova mesmo. Quer dizer, talvez não tão nova assim, mas não das antigas, entende? Também não é da Gadú, nem do Tim Maia, como vi num comentário outro dia. É do Luis Kiari. Sim, Luis Kiari. Não conhece? Nem eu. Não conhecia. O moço tem músicas lindíssimas. “Escravo, meu amor, é o coração, que bate por bater. Sem ter algum amor como razão. (...) Devolve o que é teu, e volte a teu lugar. És livre para amar, és livre para sonhar...”, coisa fina, não? Que habilidade para brincar com as palavras e falar do amor. Está em “Teu lugar”. Depressa, mando comprar seu CD “Três”.
As composições do Kiari são delicadas, exploram as diversas vertentes da vida humana com doçura, elas vão comendo você pelas beiradas. Letras misteriosas, canções que pedem busca faminta, desejo insaciável. E são níveis de compreensão; diversos. E músicas que falam de amor, poesia elegante, gigante, doce. Assim são: “A bailarina”, “Quando fui chuva”, “Ainda cedo”, “Dentro de mim” (linda, linda, linda). Você precisa estar com fome, acarinhá-la como você acarinha um amor, desnudá-la, despi-la, deixá-la limpa, quente, penetrá-la mansamente, entrar no seu mundo.
Kiari é um talento só. E não só. Tem o Caio Sóh, a Maria Gadú, o Gugu Peixoto, o Áureo Gandur, o Tomaz Lenz, o Pedro Barnez, o Fred Sommer e o Leandro Léo, trupe conhecida como “Varandistas”: uma turma de amigos que se reunia num apartamento no Recreio, no Rio, para cantar, beber, jogar conversa fora, espantar a solidão. Desses encontros saíram preciosidades, talvez, Linda Rosa.
Entendê-la pode não ser uma tarefa das mais fáceis. Esperei o próprio autor numa entrevista longuíssima para uma tevê de Campina Grande, pôr a pá de cal. Não pôs. Nada. Nem falou nem lhe foi perguntado. Já vi na web muita gente falando coisas, um montão de coisas, que é uma canção lésbica, por exemplo. Será? Pois pra mim ela fala de uma garota de programa (prostituta ou puta são tão pesados que me recuso). Foi Julio quem me alertou. Concordei na hora.
Só você, Kiari, pode dizer qual a verdade escondida em Linda Rosa. O que o levou a talhar essa lindeza, qual foi a sua inspiração, no que estava pensando?
Sei que você não vai falar, muito menos ler essa crônica vai (ela não está na Folha, Estadão, O Globo, já imaginou?). Satisfaço-me então com a minha, só minha, (ah, do Julio, claro) interpretação.
Sim, sim, uma garota de programa, linda, uma rosa perfumada, sensual, charmosa, de coração escravo, que só bate por bater.
Quando ouço Linda Rosa, eu penso nela, assim... 

P.S.: Os autores de Linda Rosa são Luis Kiari e Gugu Peixoto

 

 

 



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4 comentários:

paulo pereira disse...

Bela crônica!
Bela poesia! Não ouvi, mas a melodia deve ser, também, bela.
Como tudo o que você escreve.

Zoraya Cesar disse...

Só de te ler me deu vontade de ouvir, Sergio! Ainda nao conheço a música, mas pra merecer essas linhas lindas, deve valer muito mesmo.

Beatriz Cruz disse...

Pelo seu entusiasmo, a música deve ser tão bonita quanto à crônica. Parabéns!

sergio geia disse...

Sim, amigos, escutem Linda Rosa, com a Maria Gadú. Se preferirem ao vivo, façam uma busca no You Tube, vocês vão achar. A primeira vez que ouvi estava no carro, me encantei na hora. Fui atrás.