sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

RATOS - 2a e última parte >> Zoraya Cesar

Leia Ratos - 1a parte - Tenho ódio e inveja de todos e cada um, cada ser humano sobre essa Terra. E sempre que pude prejudiquei o mais possível aos outros. Isso me diverte. Isso me motiva. O ser humano é estúpido e limitado. Quero conviver entre os seres mais inteligentes do planeta e deles ser o Amo Supremo: o Rei dos Ratos. 

Dei início, portanto, à domesticação dos meus murídeos. Para ganhar sua confiança e ter sobre eles ascendência, comecei por dar-lhes restos da minha comida e ração, fazendo-os comer na minha mão. 

Quando percebi que eles, à vontade comigo, obedeciam-me, passei à segunda fase de meu plano. Seria uma aventura perigosa e estranha, eu tremia de excitação. Meus bichinhos farejaram minha disposição, e seguiram-me, entusiasmados e vorazes. Amo essa minha nova família devotada e selvagem.

Sempre fui bom andarilho: enxergo e me locomovo muito bem no escuro. Silenciosos e despercebidos, entramos na vila e, sob meu comando, matamos o poodle da professora da escola. A essa expedição seguiram-se outras, igualmente exitosas (de uma feita, pegamos um leitão, que, de tão novo, nem grunhia ainda). Assim, inaugurei uma nova forma de alimentar e domesticar minhas ratazanas. Minhas? Não, nunca tive essa pretensão. Elas eram delas mesmas, mas eu sentia que encontraram em mim um mestre, alguém que poderia elevá-las a um grau de sofisticação e poder muito maior.  Eu, o Rei das Ratazanas. 

Faltava muito pouco para a penúltima fase do meu plano. Minhas queridas passariam a se alimentar de outro tipo de carne.

Ah, sim, meu plano. Tenho de deixar tudo claro agora, não terei outra oportunidade. Eu só queria aterrorizar os habitantes da vila com a invasão dos ratos até que todos fossem embora. Isso me divertia. E queria ser o Rei dos Ratos e Ratazanas, a espécie mais inteligente e resistente do planeta.

A ratazana é uma conquistadora, que extermina os outros ratos e exaure todos os recursos do ambiente. Então, as mais fortes passam a comer as mais fracas.

Estava cada vez mais entrosado com meus bichinhos. Dormia com eles, comia com eles, adestrava-os o dia inteiro. Conhecia-os pelos nomes; eu chamava, eles vinham. Nunca fui tão feliz.

Chegara a hora do último passo. O derradeiro. Aprontei minha mochila e saí, acompanhado de minha família murídea.

O mendigo estava perdido no mato e nem se deu conta de minha aproximação. Eu o conhecia, costumava esmolar de povoado em povoado e era tido por doido. Dei-lhe uma paulada na cabeça – que devia ser vazia mesmo, pois ele morreu com aquele único golpe.

O mendigo foi apenas o primeiro, e já dessa feita meus bichinhos ficaram mal acostumados, como eu esperava que ficassem. Confesso que não foi fácil arranjar-lhes humanos para comer. Era, no entanto, imprescindível que eu o fizesse.

Fui me virando, mas não me estenderei, pois resta-me pouco tempo. Vou me ater à última vítima, pois foi essa que selou meu destino.

Foi tudo muito rápido. O viúvo daquela minha prima que induzi ao suicídio bateu à minha porta no ocaso do dia de hoje. Nem sei como o idiota me achou, mas lá estava ele. Só de vê-lo o ódio subiu aos meus olhos e nem esperei que começasse a falar.

Ataquei-o, furibundo e descontrolado. Mas ele não era igual às vítimas anteriores, fracas, indefesas ou desapercebidas. Embora pego de surpresa pelo inopinado e fúria do ataque, ele reagiu.

Foi uma cena linda, digna de registro. Pena não terem filmado, pois minhas reles palavras não traduzirão a beleza daquele momento. Ainda agora, esperando meu destino, emociono-me.

Atracamo-nos com violência. Sabíamos, ambos, que aquela seria uma luta de vida e morte. Ele era forte, mais moço, resistente. Mas eu era mais ágil e malicioso. E tinha o ódio a me guiar. Ademais, ele já começara a luta em desvantagem, abalado pelo meu golpe inicial.

Foi uma luta renhida. Suor e sangue entravam por nossas narinas, afogando-nos; e em nossos olhos, queimando-os e cegando-nos. A dor pelos dentes e ossos quebrados era quase insuportável.

Os ratos fizeram um círculo ao nosso redor, as presas batendo, as narinas fremindo pelo cheiro de sangue, pela antecipação do repasto. O barulho que faziam era assustador até para mim, quase uma ratazana, eu mesmo.

Alguns exemplares podem atingir 50 centímetros 
e pesar quase um quilo.

Meu oponente se assustou com a proximidade da rataria – pareciam demônios com suas bocas escancaradas -, e distraiu-se por um nano segundo. Isso decidiu a luta.

A platéia, antes imóvel e expectante, aproximou-se. Arrastei-me para a cabana, mas nem me dei ao trabalho de fechar a porta.

Ratos podem se espremer e passar por frestas de portas. 
Seus dentes são mais duros que metal.

Meu destino chegou no ocaso do dia.
Coincidência ou não, ratazanas são animais noturnos.
Acho que, desde o princípio, nenhum de nós teria chance.
A maioria de meus ferimentos talvez se curasse com o tempo. Mas tempo era algo que eu não teria. De um corte profundo o sangue escorria, uma deslumbrante catarata rubra. Meu pé, torcido e inchado, impedia-me de andar, quanto mais correr dali.

Não havia saída possível. Ouvi-os se alimentando com o sujeito e resignei-me. Porque não tenho dúvidas: acostumados à carne humana, e tendo meu corpo ferido à sua disposição, meus próprios ratos não tardarão a vir ao meu encontro. O cheiro de sangue desperta os instintos e supera qualquer treinamento.

Ratazanas comem tudo o que veem pela frente. 

Apesar da dor excruciante e da fraqueza, consegui escrever esse relato que você agora lê. Aproveite minha experiência, seja você o Rei dos Ratos e domine a terra!

Os ratos podem passar meses sem beber água, mais tempo que camelos. Nadam centenas de quilômetros e podem cair de mais de 20 metros sem se machucar. São resistentes à radiação. E desenvolvem imunidade contra venenos.

Ouço-os se aproximando, o barulho de patas impacientes e narinas frementes. A noite está caindo e o frio me entorpece. Ou talvez seja a perda de sangue, não sei. Procuro uma faca e não encontro. Se não me matar antes que entrem, serei comido vivo, como alguns dos outros.

Olho para fora e, nessas últimas luzes antes do anoitecer, vislumbro uma dezena de olhos e presas brilhantes. E eu ainda não estou morto. 



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6 comentários:

Ana Luzia disse...

ah, meu Deus, quase não consegui ler, tenho horror a ratos! se é mesmo verdade que das histórias sempre tiramos uma lição, vou continuar odiando ratos e, definitivamente, evitar qualquer associação possível a esse pequenos seres rabudos...

Marcio disse...

Muito bem feito para esse pangaré.
Se ele tivesse avançado em sua domesticação de ratos, poderia ter-lhes infundido algum sentimento de gratidão ao autoproclamado "mestre".
Mas não, como qualquer megalomaníaco, incorreu no erro de tentar dominar o mundo o quanto antes, sem garantir a lealdade de suas tropas.
De volta ao texto, parabéns à autora!
Surpreender sempre é realmente uma surpresa!

Clarisse Amador disse...

Gente!!! Não imaginava que os ratos tivessem todos esses super-poderes!!! Quase que me deu vontade de virar uma rata também.... kkkkk

Anônimo disse...

Como também fez o Lula, quem se junta e/ou vive com porcos e ratos, acaba comendo lavagem, virando linguiça, etc...! Esse foi comido "in natura" mesmo.
Caramba, essa crônica deve ter batido o seu recorde e defuntos. Até perdi a conta!
E para variar, nessa não teve nenhum "fato erótico" para animar, ainda mais em uma "sexa-feira"!

Anônimo disse...

Pelo menos a natureza das ratazanas é essa é pronto. O homem tem (ou deveria ter) conaciencia sobre sua natureza mas muitos escolhem ser algo ...pior do q ratazanas. Boa reflexão sanguinolenta a da história!!!

Unknown disse...

Que horrível, Zoraya. A próxima história tem que ser fofinha...essa foi praticamente um filme de terror, bem escrito, é verdade, mas um filme de terror... Trate de usar seus poderes linguísticos para as forças do bem da próxima vez. Humpf!