quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

PHAROPHA>>Analu Faria

O brasileiro é cordial. E chique. O brasileiro é um cordial chique. Ou talvez a classe média seja chique. Cordial e chique. Talvez a classe média seja seletivamente cordial. Mas definitivamente é chique. A gente é (também me incluo na categoria) uma classe média cordial (ma non troppo) e chique. 

É por isso que há um tempo a gente resolveu que "vai estar fazendo" alguma coisa no futuro e não que "vai fazer". É por essa mesma razão que, depois de descobrir que  " estar fazendo"  tornou-se coisa comum para o pessoal do telemarketing (e o pessoal do telemarketing não é chique), a gente também deixou de usar gerúndio. A gente confundiu gerúndio com gerundismo. Então "estamos trabalhando" foi banido, mesmo que neste momento a gente err... esteja trabalhando.

Entre os profissionais do Direito, então, nossa! é uma chiqueza danada! A gente (porque, novamente, eu me incluo na categoria) adora uma inversão de ordem na frase, tipo:  "Sabe o réu que sua conduta irregular está." Daqui a pouco a gente vira o Yoda. Mas um Yoda chique, porque a gente é classuda. Aliás, não pode falar "classuda", porque "classuda" não é uma palavra chique. 

Acho que é também por isso que a gente evita falar "a gente". Quanto mais chique a gente fica, mais a gente usa "nós". A mudança acontece primeiro na escrita, que a gente (chique) achou por bem considerar o terreno da formalidade. Depois a coisa se alastra para a fala. O suprassumo do chique é chegar a uma reunião e dizer "vamos apresentar nossas metas para o próximo ano, para que possamos entender o que nos espera." Eu fico até emocionada.

Proponho, portanto, que deixemos quaisquer resquícios de deselegância verbal para trás. Que não usemos mais "a gente". Que invertamos as frases o quanto pudermos. Proponho até que troquemos o "F" pelo "PH", pelo valor aristocrático óbvio desse dígrafo. Sim, teremos, por exemplo, de trocar a grafia da palavra "farofa" por "pharopha" - algo rebuscado, é verdade, mas é o preço que se paga pela galhardia.


Partilhar

3 comentários:

sergio geia disse...

Show!!!

Zoraya Cesar disse...

Meta para 2018: ser chique. Ou chike? Muito bom, Analu!

Analu Faria disse...

Obrigada, Sergio.

Zoraya: hahahaha, acho que tem que ser graphado com y. E k é uma coisa muito americana. "Qu" me parece mais francês, portanto, mais phyno. Então ficaria assim: "chyque"(até me arrepyo)