Pular para o conteúdo principal

PHAROPHA>>Analu Faria

O brasileiro é cordial. E chique. O brasileiro é um cordial chique. Ou talvez a classe média seja chique. Cordial e chique. Talvez a classe média seja seletivamente cordial. Mas definitivamente é chique. A gente é (também me incluo na categoria) uma classe média cordial (ma non troppo) e chique. 

É por isso que há um tempo a gente resolveu que "vai estar fazendo" alguma coisa no futuro e não que "vai fazer". É por essa mesma razão que, depois de descobrir que  " estar fazendo"  tornou-se coisa comum para o pessoal do telemarketing (e o pessoal do telemarketing não é chique), a gente também deixou de usar gerúndio. A gente confundiu gerúndio com gerundismo. Então "estamos trabalhando" foi banido, mesmo que neste momento a gente err... esteja trabalhando.

Entre os profissionais do Direito, então, nossa! é uma chiqueza danada! A gente (porque, novamente, eu me incluo na categoria) adora uma inversão de ordem na frase, tipo:  "Sabe o réu que sua conduta irregular está." Daqui a pouco a gente vira o Yoda. Mas um Yoda chique, porque a gente é classuda. Aliás, não pode falar "classuda", porque "classuda" não é uma palavra chique. 

Acho que é também por isso que a gente evita falar "a gente". Quanto mais chique a gente fica, mais a gente usa "nós". A mudança acontece primeiro na escrita, que a gente (chique) achou por bem considerar o terreno da formalidade. Depois a coisa se alastra para a fala. O suprassumo do chique é chegar a uma reunião e dizer "vamos apresentar nossas metas para o próximo ano, para que possamos entender o que nos espera." Eu fico até emocionada.

Proponho, portanto, que deixemos quaisquer resquícios de deselegância verbal para trás. Que não usemos mais "a gente". Que invertamos as frases o quanto pudermos. Proponho até que troquemos o "F" pelo "PH", pelo valor aristocrático óbvio desse dígrafo. Sim, teremos, por exemplo, de trocar a grafia da palavra "farofa" por "pharopha" - algo rebuscado, é verdade, mas é o preço que se paga pela galhardia.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Meta para 2018: ser chique. Ou chike? Muito bom, Analu!
Analu Faria disse…
Obrigada, Sergio.

Zoraya: hahahaha, acho que tem que ser graphado com y. E k é uma coisa muito americana. "Qu" me parece mais francês, portanto, mais phyno. Então ficaria assim: "chyque"(até me arrepyo)

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …