quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

CARRO E MÁQUINA DE COSTURA >> Carla Dias >>

Ainda era menino, quando assistiu àquela cena. O pai insistiu que era nada demais, somente um olhar curioso dedicado a um acontecimento que não pertencia à história dele. Há quanto tempo? Era um menino, daqueles que passam a infância na rua, envolvidos com as brincadeiras e as malandragens infantes.

Há mais de quatro décadas.

Parou de fumar há alguns anos, mas às vezes gosta de ficar com o cigarro na mão, apagado. Vez ou outra, até o coloca entre os lábios, para sentir a textura. Orgulha-se de não o acender, apesar do desejo que ainda o toma.

Passa algumas horas assim, sentado à janela da sala, observando o lá fora. Cigarro apagado entre os lábios, lembrando um vício que lhe custou muito da saúde, mas do qual não consegue se livrar de vez. O ritual ainda o acalma, assim como algumas mentiras.

O casal discutia na porta de casa. Eram vizinhos, os pais de um colega dele. Aliás, o menino estava ao seu lado, mordendo os lábios, os olhos aguados, envergonhado ao ver que as pessoas paravam para assistir ao espetáculo. O tema da discussão era o ciúme, não por outra mulher, tampouco por outro homem. Era ciúme dela pelo tempo que ele gastava cuidando de seu carro. Eram horas e horas lavando, limpando, lustrando, tratando o tal com um carinho e atenção que ela não recebia há muito tempo. Mas ele também sentia ciúme, que não se conformava com ela passar horas debruçada naquela máquina de costura, inventando roupas, repetindo que se tornaria uma famosa estilista.

Ele tinha lá os seus dez anos e sempre foi esperto. O amigo, filho do casal, era um pouco mais avoado, desinteressado em saber mais do que um garoto da idade deles naturalmente saberia. Naquele momento, ele comentou que preferia estar na casa da tia, onde costumava passar as férias, em vez de estar ali, assistindo aos pais lhe fazerem passar vergonha.

A cena chamou a atenção dele para a paixão desconcertante que aquelas pessoas exibiam em público. A paixão pelo carro, pela máquina de costura e de um pelo outro. Claro que ele não sabia do que se tratava aquilo, naquela época. Adulto, até chegou a confundir aquela paixão com a que sentia pelo cigarro. Deu-se conta do erro, muitos maços e check-ups depois.

Eles não agiram como acontece em histórias inventadas por romanceadores de tragédias. Eles não terminaram a discussão ao compreenderem que perdiam tempo com bobagens. Não reconheceram um ao outro como mais importantes do que o carro ou a máquina de costura. O pai dele, senhor muito simples e sábio, disse ao menino que ali tinha jeito nenhum. O amigo olhou para ele, desolado. Ele olhou para o pai, bravo com a sinceridade exposta na presença do amigo. Entendeu o que o pai disse, mais tarde, algumas paixões depois.

Naquele dia, o pai de seu amigo tirou o carro da garagem e sim, estava uma lindeza, brilhando. Tirou o carro da garagem, saiu cantando pneu e não voltou mais. Largou tudo na casa: roupas, documentos, o filho e seu amor para todo o sempre, amém. A mãe começou a passar mais tempo ainda com a máquina de costura. Porém, a dedicação e o desejo de se tornar uma estilista reconhecida deram lugar a uma tristeza tão profunda, que ela só conseguia costurar uniformes sob encomenda. Eram pilhas de uniformes e litros de lágrimas.

O amigo dele fez o melhor que pode e sobreviveu à ausência do pai e à tristeza da mãe. Saiu-se melhor do que os apaixonados, mas jurou que nunca teria aquilo, então que preferiu não aprender a dirigir ou a usar roupa de marca. Só para garantir.

Ele nunca comentou com o amigo que, depois de assistir àquela cena, voltou para casa e ficou um bom tempo sentado no sofá da sala, olhando para lugar nenhum, respirando baixinho, ausente mesmo. O pai teve de lhe dar um peteleco para que ele voltasse à vida.

Desde lá, ele busca uma paixão daquela para sentir, mas que não seja boicotada por uma incapacidade cruel de não enxergar no outro a personalidade da sua paixão pessoal. Claro que ele descobriu sua paixão e ela tem sido sua principal companhia, há muito tempo. Descobriu a música, dedicou-se ao violão e a primeira canção que compôs fez grande sucesso e o ajudou a comprar sua casa.

Descobriu o cigarro, logo depois, mas reconheceu ter se enganado com essa paixão.

No dia em que a canção tocou na rádio, pela primeira vez, ele estava na casa do pai, sentado naquele mesmo sofá de antes, onde se sentiu paralisado pelo que sentia, após assistir à cena do casal. Ao seu lado, o amigo, que iria escutá-la pela primeira vez. Ele ficou assim, vidrado na expressão do outro. Foi de partir o coração, quando o amigo chorou uma vida, de um jeito tão sentido, que o pai do outro teve de dar um calmante ao coitado.

O pai repreendeu o filho com vigor. Onde já se viu fazer isso com um amigo? Apesar de adulto, o filho recebeu as palavras do pai como se ele fosse aquele menino, assistindo à vida do amigo mudar ali, por causa de um carro e uma máquina de costura.

As pessoas estão apressadas, que é véspera de feriado e elas têm de aproveitar a folga. Correr para seus amores, seus recantos, suas paixões. O cigarro entre os lábios e o silêncio da casa o confortam. A lembrança do choro do amigo ao escutar a canção o entristece. Não pela canção, que modéstia à parte, ele é bom compositor e a canção é mesmo primorosa. Merece todo sucesso que ainda faz. Porém, sim, sentiu-se mal por fazer o amigo relembrar daquele momento em que as paixões dos pais foram mais importantes que o amor pelo filho. Claro que, adulto, ele entendeu de vez que as pessoas não devem estar com outras apenas por conveniência ou medo de lidar com as responsabilidades que vêm com um fim, que isso nunca dá certo, só piora o que já está ruim.

É a lembrança que maltrata.

O pai do amigo não voltou, não mandou notícias. Corria a história de que ele tinha morrido em um acidente de carro, mas nunca se soube com certeza. A mãe até tentou se acertar com a vida, mas acabou morrendo de tristeza, depois de se apaixonar pelo álcool, alguns anos depois.

O amigo teve uma vida simples e organizada, de forma que nada o surpreendesse. Ainda assim, foi das pessoas mais surpreendentes que ele já conheceu. Nunca o perdoou por ter escrito aquela canção, porque, a cada vez que a escutava – e como ela fez sucesso tocou muito e foram várias as versões -, ele se lembrava daquele dia em que sua vida mudou completamente e não para melhor. Muitos anos depois, confidenciou a ele que adorava a canção, e que, apesar de se sentir meio triste ao escutá-la, também se sentia confortado por saber que alguém o enxergou naquele momento e que isso apaziguava sua solidão. Depois, pediu uma porcentagem dos direitos autorais, já que era a história da vida dele.

Seu amigo faleceu há alguns meses. Jovem, de vida simples e sábio. O pai apareceu no enterro, velho, complicado, dirigindo um carro caindo aos pedaços; o mesmo carro. De todos os pertences que herdou, o pai só levou com ele a velha máquina de costura.

Se a canção que ele compôs toca na rádio, ele desliga. Se alguém lhe pergunta a respeito dela, ele vira as costas e vai embora.

E, sim, ele voltou a fumar.

carladias.com



Partilhar

2 comentários:

Anônimo disse...

As histórias de uma vidas contadas por quem sabe contar. Parabéns, Carla Dias, por nos emocionar assim. Valeu!

Carla Dias disse...

Enio, obrigada... Sempre. Beijo!