quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

TEM CAFÉ >> Carla Dias >>


Do que já perdi, muito não faz sentido. Não por ter perdido, mas por ter sentido tão profundamente a perda. Perder é verbo indecente, que interfere na vida da gente o tempo todo. É preciso entender que ele também é delimitador de catástrofes pessoais, já que, muitas vezes perdemos o que/quem desejávamos para não nos perdemos de nós mesmos.

Há quem delegue à perda certo romantismo, o que pode parecer – e ser – uma forma de dar menos importância a ela. Quase sempre, percebo esse gesto como uma maneira única de se suportar o vazio que fica. Somos péssimos ao lidarmos com o vazio. Temos o hábito de preenchê-lo com brevidades, apego ao que já é passado e não conseguimos abandonar, tamanho medo que sentimos do que será.

Você pode até questionar o motivo de eu falar sobre perdas na primeira crônica do ano, quando muitos ainda celebram os ganhos: presentes, viagem, tempo extra compartilhado com os afetos, beijos roubados nas primeiras horas do ano. Não estranhem tanto assim. Também não pensem que estou aqui para reciclar poesia ao proferir as auguras das perdas. Tampouco irei declamar o agridoce caminho que é preciso trilharmos para sobrevivermos a elas.

Nada disso.

Essa crônica pode até ser sobre mim, mas não sobre as minhas perdas; certamente sobre minha impotência. Não é sobre vender a ideia de se fazer deste ano o melhor de todos ao encará-las. Não é sobre compartilhar receitas para amenizar a tristeza que perdas deixam pelo caminho.

É sobre ter observado de perto a perda do outro. A perda de quem ama alguém que se foi, mas continua aqui. Ausência na presença. De quem se foi de fato, deixando uma saudade que parece impossível de se atenuar. De quem se foi de uma história para outra, deixando na vida daqueles que viveram a primeira, uma tristeza imensa, misturada ao desejo tão imenso quanto de que o outro encontre a felicidade. De quem perdeu o espaço que tinha na vida de outros, e por medo do novo, reluta em seguir em frente, impedindo a si e aos outros de descobrirem seus caminhos.

É uma crônica sobre mim, porque foi meu olhar que se fincou nessas perdas, nessas pessoas, nessas histórias. Porque eu gostaria que elas soubessem que, se eu fosse uma boa recuperadora de perdas, eu os ajudaria. Se eu fosse uma competente preenchedora de vazios, eu os ajudaria. Daí que sou apenas uma pessoa, impotente diante das perdas, principalmente daquelas em que a lógica não colabora com a aceitação. Sou eu, sem qualquer habilidade mágica para descartar o que é preciso ser vivido.

Então, essa crônica é apenas meu jeito de dizer que, apesar das perdas, terá sempre café aqui em casa para vocês.

Imagem © Mario Sironi

carladias.com



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3 comentários:

Zoraya Cesar disse...

Que beleza de crônica para iniciar o ano, Carla! Que melhor presente é o de saber que, na casa da amiga haverá um ouvido compassivo e um café quente? Felizes os que podem compartilhar de sua amizade!
Um feliz 2018 com muito café e ombros amigos. E mais dessas suas crônicas maravilhosas, suas frases inigualáveis, sua sensibilidade absurda de linda e profunda!

Anônimo disse...

Carla, com a sua fina sensibilidade vai nos passando mensagens belíssimas. Pelo "aqui tem café no bule pra você" nos remete ao "esqueça o que se passou e bola pra frente".
Parabéns, linda cronista!

Abraços
Enio

Carla Dias disse...

Zoraya, obrigada! Que assim seja com NOSSO 2018.
Beijo.

Enio,
Obrigada, sempre. Beijo.