sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

CUIDADO >> Paulo Meireles Barguil


 "Olha mais para mim
Dentro de meu sentimento e tudo de mim
Seja meu lar, uma canção, um carinho
Uma frase de paz."
(Milton Nascimento, Dança dos meninos)
 
– Se cuide. – era o que ela costumava dizer quando ele estava perto de sair.

Outras vezes, ela proferia "Cuidado.".

Assim mesmo: sem exclamação, nem três pontos, a frase sempre terminava com um ponto final, mas com uma entonação suspeita.

Essa mensagem cifrada era destinada, prioritariamente, para as glândulas suprarrenais, responsáveis pela produção e liberação da adrenalina e do cortisol, dentre outros, as quais deveriam, desde então, estar alertas.

Ela sabia que esse aviso era biologicamente desnecessário, mas ela insistia, após mais de 40 anos, em proferi-lo, mesmo quando ele ia ao jardim para colher alface ou plantar tomate.

Na maioria das vezes, o zelo, a proteção era uma forma camuflada de dizer para ele não crescer, que poderia resultar na sua saída, não mais temporária, de casa.

Cada pessoa cuida de si e dos outros de acordo com o que viveu, ou seja, da forma como foi tratada.

Esse aprendizado não precisa de discurso, o qual costuma ampliar, mediante a mielinização de milhares de neurônios, a velocidade e a intensidade da lição.

Caso haja discrepância entre o gesto e a palavra, o aprendiz, inconscientemente, optará pelo primeiro e entenderá a segunda como uma figura de linguagem, mesmo que ainda não tenha estudado sobre isso.

Há sempre a possibilidade de modificar as intricadas conexões entre sentir-pensar-agir, sendo necessária uma incessante investigação e um fortuito milagre.

É possível que o acaso, muitas vezes acompanhado de dor, dispense da pesquisa a pessoa, a qual poderá nessa ocasião, a depender do seu grau de abertura, alterar a sua jornada.

A petrificação pode ser um trampolim ou uma armadilha: nos impulsionar para o infinito ou nos prender no limitado.

Desconfio que cada situação seja simultaneamente os dois, independentemente do decidido!

Em tempos tão acelerados e repletos de múltiplas estimulações sensoriais, que costumam nos tragar e triturar ferozmente, eu insisto em expressar, não somente com sons, para mim:

– Cuidado...

[Foto de minha autoria. 26 de julho de 2017]


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