RODA-GIGANTE E JOAQUIM >> Sandra Modesto

 

Disseram ao Joaquim que o amor viria acompanhado de muito dinheiro... 
 
Que o sol era grande e a vida pequena 
 
A inocência 
 
Durava pouco e a crueldade quem dera! 
 
Que o abandono era certo. 
 
E o sorriso efêmero... 
 
Ao Joaquim disseram ainda – que não acreditasse em sonhos pra não se "ferrar"   
 
 
Disseram também  
 
Neste dia – que as promessas nem sempre venceriam a verdade. 
 
Que o doce do coco podia azedar. E que o chocolate sem calorias era então mentira. 
 
Que o sorveteiro (enfim) podia parar de gritar. 
 
E o telefone poderia "navegar" (...). 
 
Disseram – que o choro existiria mais que as estrelas.   
 
 
Que a dança seria separada dos rostos colados 
 
O rebolado dos corpos travaria luta com os tropeços das gentes. 
 
Disseram que o respeito humano, 
 
O beijo escondido, 
 
O abraço apertado; 
 
Tudo, tudo enfim seria transformado...   
 
 
(A experiência, a realidade, a verdade e a esperteza, os textos escritos).     
 
 
 
O tempo passou, a roda girou. Os dias desiguais. 
 
A voz, o som memorizando sonhos. 
 
As suas surpresas tinham lá suas razões. Ele ficou só por que 
 
Todos que habitaram sua consciência; 
 
O deixaram pra que ele vivesse o quanto pudesse. 
 
Ele meio tonto agora, ocupando um estranho espaço. Quanto espanto!   
 
 
Mas o ritmo da roda... 
 
Foi misturando tango, piano, guitarra, tamborins. 
 
“A vida é bizarra a vida tem fim” 
 
Ele pensou. Só tinha certeza:   
 
 
O que disseram a ele ficou carregado em solilóquio.  
 
Eu acreditei... Lembranças não fariam parte de mim. 
 
Restou- lhe então, pensar no agora... 
 
Tirou o pijama, abriu o chuveiro.   
 
 
Fez a barba aproveitando a água quente, Olhou-se no espelho, escovou os dentes... Agendou dentista, reparou os fios grisalhos... Releu trechos de Drummond. Enquanto tomava café sem açúcar, conferiu tarefas do dia pelo celular... Respondeu e-mails disfarçando a solidão Saudades dos filhos. 
 
Do amor do passado. Antes de sair para o trabalho imaginou umas palavras.  
 
Imagens que nunca saíram de cena. 
 
Abriu o Word e fez um poema... 
 
Começou assim: 
 
Joaquim... 
 
 
 
* O texto foi escrito em 2013. É uma adaptação de uma crônica publicada no primeiro livro da autora. Em 2015.  

Comentários

Laercio disse…
Parabéns pela bela cronica. O mundo é mesmo uma roda gigante.Assim é o mundo. Não diferete o meu país.
Zoraya Cesar disse…
Que maravilhosa crônica. Por um momento temi q ele se matasse de desgosto pela vida perdida. ainda bem q foi salvo pela poesia. Me lembrou aquele curta-metragem Escolhas.
Sandra Modesto disse…
Laércio e Zoraya, muito obrigada pelos comentários.
Albir disse…
Muito bom! Bastidores do poema do Joaquim.
Fred Fogaça disse…
Ótimo, Sandra!
Sandra Modesto disse…
Albir e Fred, muito obrigada pelos comentários.😍😍

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