RESGATE DO PASSADO parte 2 - UMA AVENTURA DO DETETIVE SEM NOME >> Zoraya Cesar



O dia estava frio e seco, mas, ainda assim, os lábios carnudos de Nahesa estavam úmidos. Podia sentir as emanações de calor saindo de seu corpo quente enquanto a ouvia falar. 

Casara com Victor Sehdi por amor (por amor ao seu dinheiro, eu desconfiava, mas quem sou eu, cético e descrente, para julgar?), pouco tempo depois ele adoecera e em menos tempo ainda, morrera. O irmão dele, Theo, fora contra o casamento. Dizia que ela não passava de uma arrivista sem-vergonha. Nahesa chorava grossas lágrimas peroladas que escorriam em graciosas trilhas por sua pele perfeita e demaquilada. Entendi porque Victor casara com ela. Impossível resistir àquela mulher. 


Desculpem, me perdi em pensamentos quase obscenos. Voltemos. Ela sabia que Theo tentaria me contratar para investigá-la e ajudá-lo a levantar calúnias, como ela ter um amante, ou, até mesmo, acusá-la de ter matado Victor. (Pensei com meus cadarços que, geralmente, cunhados agressivos querem comer a cunhada). Pedia-me que a protegesse e evitasse tal injustiça. Que destruísse qualquer evidência forjada e provasse que tudo ocorrera segundo a ordem natural das coisas. Um médico de confiança do casal atestara isso! O irmão confiaria na minha palavra, por conta da minha amizade por Victor. E eu era um profissional bem conceituado no meio em que trabalhávamos. Ela pagaria bem. Será que eu não daria um jeito? Por Victor? Por… ela?

Aceitei, claro. Mulher bonita em apuros e dinheiro era um chamado irresistível. Sou um romântico (nem sempre inteiramente ético, mas, que diabos, não vim aqui pra ser santo), ainda vou me dar mal por causa de meu coração mole. Ademais, estava curioso. Quem teria razão naquela história? E eu devia a Victor. Muito mais do que ele jamais imaginaria. 

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No dia seguinte, confirmaram-se as previsões de Nahesa: Theo, o irmão, ligou. Combinamos de nos encontrar no final da tarde. 

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Recebeu-me em seu escritório. A decoração era austera, como ele. Um sujeito bonitão, porte atlético, embora baixo e troncudo. Vestia-se com esmero (ao contrário de Victor, que sempre parecia estar com a roupa do dia anterior depois de uma noite na esbórnia. Bem, às vezes era isso mesmo). Seu aperto de mão era forte como uma tenaz e seus olhos, escuros, afiados como lâminas. Aquele não era homem para brincadeiras. 

- Tenho certeza que minha cunhada já o procurou. Para o que, exatamente, ainda não sei. Mas eu faço uma oferta melhor: pago o dobro para o senhor investigar a morte de meu irmão. Não sei o que aconteceu com ele depois de aposentado e velho. Cair no golpe da mulher bonita e frágil é o cúmulo da estupidez. - Realmente, ele ia direto ao ponto.

- Meu irmão falava do senhor. Era das poucas coisas que revelava do trabalho que exercia. Sei que, por questões éticas, talvez o senhor não aceite essa proposta. Mas desconfio que Victor tenha sido assassinado e quero provar isso. Pense no assunto.

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Em minha profissão, aprendemos a conhecer as pessoas. Podemos nos enganar, claro. Mas os que se enganam com facilidade já estão mortos. Eu ainda estou aqui. Confio no meu aprendizado e nos meus instintos. E, ou muito me enganava, ou o irmão de Victor era tal qual meu falecido amigo: um homem perigoso.

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Fui embora desassossegado. Havia algo estranho naquela história toda. Por que Theo, sabendo que Nahesa havia me procurado, não contratou logo outro detetive? E por que ela me escolhera? Alguém estava sendo enganado, e acho que era eu. 

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Naquela noite preparei meu bourbon e me pus a examinar toda a documentação relacionada aos últimos meses de Victor, seu testamento, fotos, depoimentos, laudo médico. Organizei as conversas que tivera com Nahesa e Theo. Revi detalhadamente minhas impressões.

Vocês devem pensar que, na minha profissão, somos um bando de brutamontes sem estudo e sem preparo, bons apenas com os punhos, nenhum cérebro. Que nossa vida é puro glamour, repleta de noitadas, sexo, tocaias em carros gelados, perseguições implacáveis. Tem disso também, não nego. Mas nem de longe tanto quanto pensam. Na maior parte das vezes pesquisamos, raciocinamos, deduzimos. Era o que fazia quando ela bateu à minha porta. Talvez o bourbon estivesse fazendo efeito, pois senti um súbito calor subir por meu corpo e se alojar na minha virilha. 

Nahesa estava estonteante Os cabelos castanhos presos num coque frouxo, que deixava à mostra seu pescoço moreno e liso, como um tronco de resedá, e igualmente cheiroso. Seus olhos brilhavam como esmeraldas ao sol. Usava um vestido discreto, próprio a quem estaria, teoricamente, de luto. O decote, no entanto, deixava à mostra um abismo entre os seios, capaz de afogar um homem. (Nessa noite, descobri que sabia nadar). 

Não trocamos uma palavra sequer, nossas bocas ocupadas demais. Ao final, ela beijou meu pescoço e disse: 

- Sei que aquele homem horrível quer me destruir. Mas você não vai deixar, não é? - Levantou-se, foi até a mesa. Bebeu do meu copo e encheu-o de novo. Saiu.

Fiquei deitado na sala escura, olhando para o teto, no qual as luzes dos faróis dos carros na rua formavam estranhos desenhos fantasmagóricos. 


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Continua dia 23 o 3o e, prometo, último capítulo! O Detetive sem Nome e eu agradecemos os comentários da 1a parte!

Outras aventuras do Detetive sem Nome

Já vi esse filme - há mulheres cujo poder de sedução pode reduzir um homem a pó. Muitos já viram esse filme. Mas há homens que podem mudar o final.

O profissional - mais que manejar uma arma, nessa profissão entender a natureza humana em seus aspectos mais sombrios pode ser a diferença entre a vida e a morte.

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Comentários

Ai, ai, assim você me mata! Zô, não maltrata!
Marcio disse…
Leitor 1: - Cara, leu o texto que a Zoraya publicou hoje?
Leitor 2 - Li! Eu estava todo empolgado, aí percebi que a história não terminaria hoje.
L1: - Pois é. Eu não sei se vou conseguir aguentar duas semanas até o desfecho. Isso, se o desfecho vier no próximo capítulo.
L2: - O que você acha que vai acontecer?
L1: - Acho que a Nahesa e o Theo vão se apaixonar.
L2: - Eu, não. Aposto que o Victor está simulando a própria morte, para desmascarar a Nahesa. Só tenho certeza de que vai ter alguém morto, até o final do texto. E acho que será essa Nahesa. Que nomes estranhos a Zoraya inventa, não?
L1: - Ah, mortes no atacado e nomes esquisitos são o traço distintivo da autora. Acho que vou tomar Rivotril aos goles, até o próximo capítulo.
L2: - Ei, será que isso não é um plano de Lady Killer???? Depois de assassinar seus personagens, será que ela está partindo para o extermínio de seus leitores???? Teremos alguma chance?
L1: - Meu amigo, acho que você tomou Toddynho sem agitar, no café da manhã. Vê se fica sossegado e leve este balde de Rivotril, para te ajudar.
branco disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
branco disse…
extremamente visual e aromático. a linha de condução vai nos deixando, vagarosamente, na posição de um espectador dentro de um cinema , em uma tarde de chuva , assistindo ansiosos cada frame da fita, e o cheiro de cigarro , ainda se podia fumar nos cinemas. ouço a voz de robert blake narrando...muito bom...melhor que excelente
Albir disse…
Sigo aqui, roendo as unhas e imaginando quem ou quantos serão os mortos desta vez! Meus remedinhos já não funcionam. Eh, vida difícil!
sergio geia disse…
Ai, ai, agora vou ter de esperar... Você faz magia com seu texto. Curiosíssimo com o final. Bjs!
Érica disse…
Ah, Zoraya... Não acredito que você fez isso de novo!!!
Você deveria ser roteirista de filmes de suspense kkk

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