sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A SECRETÁRIA (2ª parte) >> Zoraya Cesar


Então, conforme sabemos, o sogro do Dr. Roberto morreu, deixando a filha muito bem de vida, possuidora de polpuda carteira de ações com direito a voto e a vetos. Sabemos, também, que Dr. Roberto e D. Volga, sua secretária, eram amantes de longa data. 

O que não sabemos? O que eles, chefe e secretária, pretendiam. 

O plano era simples: Dr. Roberto assumiria a presidência da empresa, aumentando seu poder financeiro e esfera de influência (coisa que o sogro, enquanto vivo, jamais permitiu), minando, aos poucos a ascendência da esposa — uma das acionistas majoritárias — sobre seu destino. E, assim, pedir o divórcio, sem correr o risco de ficar ao léu. Passados, ambos, dos 30 anos, nem ele nem D. Volga tencionavam fazer dos classificados de emprego uma leitura obrigatória. Somente algum tempo depois da separação ele assumiria seu romance com D. Volga — tudo cuidadosamente orquestrado para não causar escândalo dentro da empresa, nem parecer que fora tudo... cuidadosamente orquestrado.

D. Volga, boa enxadrista que era, planejava as minúcias e orientava o amante na execução do plano. Para ela, todos têm um papel a cumprir na vida e, se você não está feliz com o seu, rasgue-o e jogue-o fora. Ou cumpra-o à risca. Era função da secretária ser fiel ao chefe. Era papel da amante apoiar seu homem. Era papel da esposa histérica ser enganada pelo marido. E era papel do marido ter uma amante e com ela se casar. Tudo estava em seus devidos lugares.

Aconselhou ao amante que não se candidatasse para assumir a presidência, sob a alegação de estar abalado com a morte do sogro; ademais, havia outros sócios-diretores muito mais experientes que ele. Talvez alguns o tenham admirado ante tal demonstração de humildade; talvez outros o tenham desprezado, diante da flagrante hipocrisia. Dr. Roberto era conhecido por não pregar prego sem estopa — mas a esposa, ah, essa acreditou piamente no discurso, e começou a angariar apoio para que ele assumisse, por definitivo, a presidência da empresa.

Se nos filmes as coisas e os fatos se sucedem de maneira rápida e simples, na vida real o ritmo é bastante diferente. Quase um ano se passou antes que a primeira parte do plano se cumprisse, e Dr. Roberto fosse entronizado, por assim dizer, na cadeira da presidência. Quem o apoiou não se arrependeu; quem era contra, logo esqueceu o assunto, ao ver as planilhas dos lucros. Como dissemos, Dr. Roberto era muito competente.

Os amantes seguiram seu plano de esperar que a posição dele ficasse consolidada, antes de Dr. Roberto pedir o divórcio. Nesse ínterim, ele facilitava que a esposa bebesse e se drogasse cada vez mais, solapando sua reputação junto aos outros acionistas. Essa era uma parte importante da estratégia, pois quem acusaria Dr. Roberto de desleal por querer se separar de uma esposa que não lhe dera filhos e ainda descia ladeira abaixo? 

Num mundo ideal, a esposa de Dr. Roberto perceberia que era apenas um peão no tabuleiro da vida do marido e viraria a mesa. Mas o mundo ideal não existe e o fato é que ela o amava com aquela possessão que só os doentes e inseguros têm. Por isso, quando ele aventou a possibilidade de uma separação, ela fez um escândalo digno de filme hollywoodiano. Que se ele ousasse sequer pensar em abandoná-la, ela arregimentaria todas as suas forças, ações e influências junto aos antigos sócios do falecido pai para destruí-lo tão completamente que ele iria morar na sarjeta. 

D. Volga entendeu a reação da mulher, sendo ela, também, apaixonada por Dr. Roberto. D. Volga, no entanto, pensava com a cabeça, não com o coração. Sugeriu ao amante que não mais falasse em separação e voltasse à rotina matrimonial, acalmando a esposa. Sugeriu também que eles, amantes, se afastassem um pouco, a fim de não serem descobertos — uma mulher desconfiada é capaz de tudo, inclusive pagar alguém para seguir o marido. Para evitar tal desastre, recomendou que ele, Dr. Roberto, colocasse um detetive atrás da esposa, a fim de antever  todos seus movimentos e, assim, se proteger. D. Volga era, como dissemos, excelente enxadrista.


E esperava por aquele homem há quase 15 anos. Não podia vislumbrar sua vida sem ele. Não depois de tanto sacrifício. Era preferível a morte. E Dr. Roberto não podia perder o cargo. A ficar desempregado e morrer pobre, era preferível a morte.

Era preferível a morte. Sim, mas de quem?


Dia 26 de fevereiro, a 3ª e última parte, prometo. 



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4 comentários:

Anônimo disse...

meu ódio será tua herança, deve ter dito o velho...

albir silva disse...

A gente aguarda em silêncio, Zoraya trabalhando!

Ana Luzia disse...

Atualizando a leitura depois de um período de férias, caio dentro de uma ardilosa trama afetiva-empresarial... só você, Zô, para proporcionar um entretenimento tão grandioso! aguardando a finalização!

bjos

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Promessa é dívida, Zoraya. :)