segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

REVERTERE AD LOCUM TUUM (Final)
>> Albir José Inácio da Silva

[Continuação das partes 1 e 2]


Sem documentos, Augusto acordou três dias depois e informou o único telefone que sabia de cor, e a assistente social fez a ligação pra funerária, interrompendo a compra e venda que já estava assinada.

A angústia do naufrágio e as longas horas na enfermaria deram a Augusto o tempo para refletir sobre a vida, a família e a pobre Quinca. Ela passou os últimos anos tentando convencê-lo da loucura do seu empreendimento.  A Bíblia era o principal argumento:

— Deus disse a Adão, “tu és pó e ao pó tornarás”. Ao pó e não ao palácio! E Jesus disse, “deixe que os mortos enterrem seus mortos”. É pecado ficar se preocupando com o corpo que já morreu. E é viva que eu preciso de conforto!

Augusto chegou ao Rio com a cabeça enfaixada e cheia de remorsos. Era sua culpa. A pobre Quinca estava doente, sedada e algemada numa maca, e ele nem sabia se ela iria se recuperar. Havia ainda o prejuízo da funerária que chegava a milhares de reais. Mas era tempo de agir, não de lamentar.

As Recaídas


Em poucos dias, Dona Quinca era outra mulher. Paparicada por Augusto, recuperou rapidamente a saúde, a razão e a fé. Não tinha dúvidas de que o marido era também outro homem. Ficou todo o tempo ao lado dela. Chegava com flores todos os dias. Confessou-lhe pecados e desvios de verba para as obras no cemitério.

Augusto só saía do hospital para cuidar da fiança e outros embrulhos legais, porque Dona Quinca estava presa em flagrante. Mas o delegado era compreensivo, foi ao hospital conversar com ela.

— Dona Quinca, a senhora não é bandida, é uma mãe de família. Não pode ficar fazendo essas coisas. A senhora agrediu mais de dez pessoas, quebrou a loja inteira, mordeu os médicos e chutou os policiais. Não faça mais isso! Eu vou deixar a senhora sair, mas que isso não se repita!

Não foi diferente com os médicos. Reconheciam todos que ela era uma boa mulher, dedicada à família, dócil e educada. Aquilo fora uma caso isolado. Até as admoestações do médico da alta foram carinhosas.

— Dona Quinca, a senhora não merece isso que a senhora fez consigo mesma. Cuide-se bem. Cuide da sua família. Espero nunca mais vê-la por aqui, a não ser para me cumprimentar!

Ela distribuiu sorrisos e beijinhos para a enfermagem e deixou todos emocionados ao sair amparada pelos braços de Augusto. Quanta diferença daquela endemoninhada que chegou há alguns dias!

Dona Quinca chega em casa paparicada por Augusto e é acomodada na sala, entre almofadas e copos de refresco. Mas os carinhos não param por aí. Quincas pega a bíblia, o que faz exultar o coração da mulher, eram uma família e Augusto estava mesmo mudado.

 — Todo aquele que escuta as minhas palavras será como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Mateus,7:24 — lê Augusto, acrescentando, à guisa de comentário: — Vê como é importante edificar a morada do futuro?

Uma ruga de preocupação aparece na testa de Dona Quinca, mas ela está feliz, abafa a preocupação e mantém o sorriso.

Quando acaba a leitura, Augusto senta-se ao lado da mulher, pega sua mão e aponta o trecho que acabou de ler:

— O que você acha de colocar este versículo acima dos nossos nomes? — antes que ela responda, Augusto pega a placa de bronze que trouxe da funerária.

Só temos o áudio, mas ouvem-se vidros e móveis se quebrando. Depois sirenes.  Aos poucos uma calma diazepínica se estabelece.

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2 comentários:

Zoraya disse...

hahaha, pobre D. Quinca! que final terrível! ótimo!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que maldade com a Dona Quinca! :)