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A SECRETÁRIA (Final) >> Zoraya Cesar

Leia A Secretária – parte I
(O plano era simples: Dr. Roberto casaria com a filha do presidente da empresa e, após a morte do sogro, assumiria seu lugar. Tempos depois, já consolidado no cargo, pediria o divórcio à mulher. E se casaria com D. Volga, sua secretária, sua amante secreta.)

Leia A Secretária – parte II
(Foram necessários dez anos para as peças se encaixarem. Dez anos de solidão para ela. Dez anos de inferno para ele. E, ainda assim, a última jogada não dera certo: a esposa de Dr. Roberto não só negou o divórcio, como ameaçou usar toda sua influência de sócia majoritária para tirar o marido da presidência.)

E agora? D. Volga não podia viver sem o homem que amara desde o primeiro momento, nem passar o resto de seus dias sendo, apenas, ‘a secretária’. Dr. Roberto não prescindiria do cargo que tanto almejara, pelo qual trabalhara 12 horas por dia e casara com uma mulher insuportável. E nenhum dos dois queria perder o emprego, ambos já não tão jovens, já mais cansados. Mas ainda muito determinados a conseguir seu intento.

Só havia, portanto, uma solução. A esposa de Dr. Roberto tinha de morrer. Morrer deixando-o livre, desimpedido e insuspeito. E como fazer isso? Com paciência e método, concluiu a pragmática D. Volga, enxadrista que era. 

Sua mente ardilosa rearranjou as peças daquele delicado e perigoso jogo. Dr. Roberto desistiria do divórcio, portando-se, em público, como o mais amável e dedicado dos maridos, enquanto espalhava a história de o quanto sofria com a esposa, cada vez mais intratável, por conta da bebida (o que não era de todo inverdade). Aconselhado por D. Volga, fez um seguro milionário, colocando a esposa como beneficiária, afastando, assim, qualquer suspeita de que a morte da esposa lhe seria vantajosa.  

Três anos se passaram. Nesse ínterim, ele, realmente muito competente, fez-se cada vez mais indispensável na empresa. Acionista gosta de lucros e estabilidade, e Dr. Roberto era muito estável. O mesmo não se podia dizer da esposa, sempre bêbada, sempre escandalosa. E todos viam como ele era tolerante, compreensivo, amoroso, até. 

Foi durante uma festa da empresa. Antes de saírem, Dr. Roberto provocou a esposa de tal forma, que ela já chegou inteiramente alcoolizada ao evento. Alcoolizada e envenenada com cianeto extraído do caroço de pêssego. Uma receita do avozinho russo de D. Volga. 

Com os sentidos totalmente alterados, a esposa do Dr. Roberto foi presa fácil para a atlética e ágil secretária. Ao descerem, juntas, a longa escadaria que levava ao salão, D. Volga pisou no vestido longo da desafortunada esposa de seu amante e, fingindo que tentava segurá-la, ajudou-a cair, rolar a escada e... morrer. 

As investigações da polícia não foram muito longe. Houve testemunhos de que a vítima chegara bêbada; de que as escadas eram perigosas, uma outra convidada (D. Volga, quem mais?), também escorregara. O IML não procurou por vestígios outros que álcool, e por que procuraria? Um terrível e lamentável acidente, concluiu o inquérito, configurando a causa mortis como quebra do pescoço. Dr. Roberto saiu limpo: estava longe da esposa no momento da queda; e não lucraria em nada com sua morte, ao contrário, quem se beneficiaria era ela, caso o ele morresse. Inquérito arquivado. Ponto final.

E para que nunca, jamais, desconfiassem de crime passional, D. Volga, em mais um lance astucioso, definiu que ela e Dr. Roberto deveriam deixar de se encontrar pelos dois anos seguintes. A paciência, dizia o avô russo de D. Volga, era a arma dos fortes.

Durante esse tempo, Dr. Roberto continuou trabalhando mais de 12 horas ao dia. Ela, sozinha, aguardava, como boa fatalista russa, que o amante fizesse o próximo movimento — casar com ela.

Esse movimento, no entanto, ele não fez.

Acostumara-se à vida de solteiro, e não via razão para casar àquela altura da vida — nem mesmo com D. Volga, sua amante e parceira de tantos anos, cúmplice de seu crime. Ademais, o tempo cobra seu preço. D. Volga, por bonita que ainda fosse, já não era nova. Dr. Roberto queria novidade.

Ele foi direto ao ponto, como era seu feitio. Por ele, continuariam amigos, amigos somente. E acrescentou que, graças a alguns investimentos que fizera em nome dela, D.Volga poderia se aposentar praticamente rica. Por que, sugeriu, não aproveitava para ir à Rússia?  

D.Volga olhava para ele com aqueles seus olhos amarelos e profundos de gato cigano,
Olhou para ele
com seus olhos amarelos de gato cigano
sua mente sistemática revendo cada lance de todos os planos, ações, conversas, sexo que os uniram boa parte de suas vidas. Esperara por quase duas décadas por aquele homem, seu amor. Ajudá-lo a matar a mulher era o que menos a incomodava. 

Aliás, não se arrependia de nada. Aprendera com seu avô: todos na vida têm um papel. Cumpra-o dignamente ou jogue-o fora. Ela cumprira seu papel de amante com louvor. Falhara, no entanto, como enxadrista, ao não perceber que o amante trocara de lado no tabuleiro, já quase no final da partida. 

A secretária, porém, não pensava com o coração, mas com a cabeça. Balançou os ombros, como a dizer "c’est la vie”. Ou pelo menos assim entendeu Dr. Roberto, que, como todo homem, pensa conhecer as mulheres. Afinal, pensou, ela era russa, sabia aceitar os reveses da vida. E bebeu a caipivodka de pêssego que ela lhe ofereceu — bebida que D. Volga preparava para ele sempre que se despediam. Um ritual de quase 20 anos.
O cianeto do caroço de pêssego...

(Rezava uma lenda familiar que o avô de D. Volga envenenara a tropa de bolcheviques que invadiu sua fazenda durante a Revolução Russa. O cianeto extraído do caroço do pêssego). 

Sozinha, sentada em frente ao tabuleiro de xadrez, ela calculou que o amante morreria no meio do caminho. Agora, refletiu, uma nova lenda familiar seria contada: a da amante desprezada que envenenou o amante infiel. Sentiu seu coração diminuir. Amara-o tanto. E o amaria para sempre. Cumprira seu papel. Estava na hora de rasgá-lo e jogá-lo fora, como ensinara o avô russo. 

Olhou longamente para o copo de bebida. Estava com tanta sede...

Comentários

Ana Luzia disse…
como assim "envenenada com cianeto extraído do caroço de pêssego"? Zoraya, querida, que tipo de literatura você anda lendo nas horas vagas? Se você não fosse muito minha amiga, eu estaria com medo de tomar um suquinho com você, rsrsrs...

e onde está Felipe Espada numa hora dessas?

seus contos estão chegando a três capítulos, em breve teremos um livro inteiro de revezes e artimanhas de D. Zô, com a graça de Deus!

Maravilhoso! beijos.
Clarisse Amador disse…
Adorei esse final aberto... Será que ela vai se encontrar com ele na outra vida.....???
Anônimo disse…
D. Volga era Folda!!!
Érica P. disse…
Tolinha essa d. Volga, né? Achou que ia largar o amante rico sozinho por dois anos e ele não ia, no mínimo, querer trocá-la por duas com a metade de sua idade? E, fala a verdade, VC matou a dona pra não ter que colocar o Felipe Espada no meio da história, senão teria uma quarta parte... Kkk
Anônimo disse…
È isso!!!!! A história é interessante mas a vida tá cheia dela.
Gosto mais da leitura oculta.
Gargalhar com os olhos amarelos de gato cigano!
Pq cigano, rs?
Até fui ver se existe tal veneno... EXISTE.

Gosto de quão refinada vc tem se mostrado.
Tb aprendi que quem quer aprnder, aprende com qualquer situação.

Como disse a leitora, claro que um livro está a caminho!
Bjs Sônia
albir silva disse…
Que inocência dele, pensar que se livraria tão facilmente de D.Volga!
albir silva disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
criativo e muito bem contado, como sempre. Um luxo de história! Quero mais contos! Beijocas admirativas de Mónica Baña
Nahendi disse…
Que legal! Li as três partes e adorei!

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