sábado, 13 de fevereiro de 2016

VIZINHOS >> Sergio Geia

Meu vizinho comprou uma chacrinha. Lembro-me que quando se deu a assinatura dos papéis ele estava feliz da vida. Disse-me que não tinha intenção de mudar pra lá. O que queria mesmo era poder se retirar nos finais de semana. Levar a família, a criançada, estender rede, dormir ao som dos bichos. Falou-me que não havia coisa melhor na vida que tomar uma cachaça bem de tardezinha, quando a noite começa a cair, sentir o bafo frio do mato a invadir a casa, a patroa já cuidando do ensopado no fogão.

Pois assim ocorre sem falhas. Nos finais de semana, meu vizinho some com a patroa e as crianças, deixando coisa nenhuma pra trás, exceto um moço que já não comunga mais da simplicidade da roça, e um pobre cachorro. Ah, e a minha desgraça, que hei de lhe contar.

A primeira vez que ele chorou não dei muita importância, afinal é comum a família sair e o cão ficar a resmungar de saudade. Logo acostuma, pensei. No entanto, quando a choradeira começou a se repetir todas as semanas, eu comecei a prestar mais atenção. O desespero (você pensou do cão?) tinha início na sexta, de noitinha, e invadia madrugada adentro. Sábado, durante o dia, acho que o pobre se cansava e dormia; porém, à noite, voltava; um bebê recém-nascido trocando a noite pelo dia. Há domingos em que meu sono da tarde é pacífico e sereno. Há domingos em que não há sono da tarde.

Pela graça de Deus, no começo da noite a família chega e o final do domingo é passado ao silêncio, como deve ser todo final de domingo, só quebrado de vez em quando pela voz insaciável do Faustão que reverbera de algum lugar.

De modo que meus finais de semana não são mais os mesmos. Sabe que até pensei em ter uma palavrinha com o amigo, explicar-lhe a situação, a dificuldade deste seu amigo de cá, digno trabalhador, de descansar a cabeça justamente nos dias que foram erigidos para esse fim. Mas você sabe como é espinhosa essa relação de vizinhança, não? Qualquer diálogo em termos de acerto por mazelas tão corriqueiras, quase sempre afeta a confiança, a amizade, o carinho que nutrimos um pelo outro, e que não podem ser quebrados por causa de resmungos caninos.

Outro dia, por exemplo, encrespei com um ovo. Sim, amigo, um ovo, um grande ovo, ou vários ovos, talvez uma grande omelete, preparada com carinho numa omeleteira enorme, que trabalha sem fim todas as manhãs. Pois sou daqueles que não têm muito estômago nas primeiras horas, cafezinho, um carequinha, suco. De modo que abrir a porta às seis da matina e sentir as narinas sendo tomadas por um aroma de ovo frito não é uma tarefa das mais fáceis. Até andei dando uma cheirada pela vizinhança pra saber quem se metia a perturbar o bom aroma matinal, mas sem sucesso. Contudo, um simples comentário largado na padaria já foi capaz de provocar desafeto com um ou outro vizinho. Pois é...

Mas vizinhos bons eu tenho. Não posso reclamar. Não será um ovo, quanto mais um cão que vão abalar uma amizade de muitos anos. E nem uma crônica. Espero.

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5 comentários:

Analu Faria disse...

Adorei!!!

sergio geia disse...

Grato, Analu!

sergio geia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo Loureiro Jr. disse...

Sergio, sua sorte é que os brasileiros leem pouco, e os vizinhos menos ainda. :)

sergio geia disse...

Escapei, Eduardo. Ainda bem, ou não... rsrs