quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

DE PASSAGEM >> Carla Dias >>


Há momentos em que se sente uma boa pessoa, daquelas dadas à benevolência na sua essência, sem expectativas, espera por recompensa.  Em outros, segue seu caminho acabrunhada, sem nem mesmo rasa vontade de tentar compreender seu semelhante. E há quando se aprofunda na vida de uma pessoa, por pura curiosidade.

O que pode garantir é que não nasceu para a plenitude. Quem a conhece, já sabe que dela não se pode esperar isso ou aquilo, que ela soa nesse mundo feito improviso. Há quem tente desvendá-la, mas em vão. Como aquela moça que a conheceu, ainda outro dia, na fila do caixa de um bar. Elas conversaram durante toda a espera, e a moça do bar acreditou que encontrara uma amiga para a vida. Saíram juntas, algumas vezes, até que...

O moço, sem sal, monossilábico e deveras arrogante, destoa da moça do bar, uma figura alegre, comunicativa. A moça do bar se mostra animada por, finalmente, apresentar à outra seu noivo de longa data: quatro anos, sete meses, vinte e sete dias.

A outra segura a mão do homem como se ele a tivesse convidado para um passeio pelo parque. Ele aprecia isso, o sorriso que lhe escapa é comprobatório. A noiva sente aquele calafrio, de quando se pega diante de uma constatação contrária a seu desejo.

Diante do interesse do noivo pela amiga para a vida, a moça do bar murcha como se fosse flor em vaso de casa com janelas fechadas. Silenciosamente, confabula consigo sobre como sacana é a ex-amiga para a vida. Porém, esse pensamento não dura muito. No fundo, ela sabe o que acontece.

O noivo desata a falar, e sobre assuntos que ela nunca escutara sair de sua boca antes; sobre os quais a moça do bar jamais imaginara que ele fosse capaz de discursar.

O sonso, agora com faces rosadas, tamanha excitação em dizer tanto a uma mulher que acabara de conhecer, mostra-se repleto de desejos, conhecimento e perspectivas, tudo o que a noiva, ainda que nos dias mais felizes, não conseguira identificar.

A outra observa a moça do bar, enquanto o noivo dela se revela completamente disponível para aventuras que, provavelmente, ela já desejara experimentar, mas pelas quais ele não demonstrara interesse. Todos os matizes que são revelados no momento, a inundação de ideias, planos, opiniões... Tudo é claramente inédito para a noiva.

Sobre ela, sabe-se que não contraria desejo de se colocar na vida das pessoas, somente para dar uma espiada. Intrometer-se na vida delas é algo que raramente acontece. No caso da noiva, bateu-lhe uma vontade tamanha de compreender o motivo de ela insistir em se manter em tal prisão.

Intrometeu-se.

Convenhamos, às vezes cometemos o erro de escolher prisão, ao invés de liberdade. Ela sabe que relacionamentos podem ser correntes, e os vem evitando há muito tempo.

A noiva, já sem disfarçar descontentamento, pediu que lhe servissem uma dose de uísque. A outra, delicadamente curvada sobre a mesa, de modo a ficar mais próxima do noivo, escuta o que o homem diz, mas não tira os olhos da escrava emocional dele.

É assim que acontece. Ela não é boa ou má, não é uma pessoa para se encaixar aqui ou ali. Porém, sabe que tem talento para compreender o que, silenciosamente, as pessoas sentem. Às vezes, não nega uma inspiração para a catarse alheia e nunca errou ao ler uma pessoa. Como a noiva, que bebe a terceira dose de uísque, sem que seu noivo tenha notado tal ousadia. Ela sabe que, daqui a uma ou duas doses, em vinte ou trinta minutos de monólogo do noivo sobre como ele pretende conquistar o mundo, a noiva chegará ao seu limite, e em vez de chorar sozinha, por horas, como já lhe confidenciou, ela dirá adeus ao seu noivo desinteressante e desinteressado.

A noiva, já desprovida da amabilidade da qual tanto se orgulha, debruça-se sobre a mesa, a boca tão próxima ao ouvido do desatento noivo. A outra se ajeita na cadeira, quer ficar em boa posição para assistir ao que virá. Então, ele sente a mão dela pousar nada delicadamente em seu braço. Irrita-se, pergunta o que acontece, sem nem mesmo olhar para ela.

Não é ciúme por ele se interessar mais por uma estranha do que por ela, que vem ajudando o tal a construir sua vida. Não é isso... Seria mais fácil se fosse. Vai além, é mais profundo. Envolve anos construindo uma falseada segurança e a certeza de que é apenas isso que merece da vida.

Imprevisível, diz o que poucos desejam escutar. Tal crueza não faz amigos para a vida, as amizades acabam durando somente enquanto ela se comporta de forma que os prováveis amigos possam compreendê-la. Bebida amarga essa, comenta a noiva, sem se referir ao uísque. Então, vira-se e cochicha algo ao ouvido do noivo que, imediatamente se vira para ela, olhos esbugalhados de surpresa e desespero.

Dali em diante, ela prefere não fazer parte. Pega sua bolsa e sai sem dizer palavra que seja. Despede-se sem adeus. Alguns passos adiante, ela se vira para observá-los: noivo dizendo tanto à noiva; ela sem a menor vontade de escutá-lo. Sabe que não continuará a ser a amiga para a vida que a moça do bar reconhecera nela. Mas, definitivamente, fora amiga para aquele momento em que a noiva estava pronta para abrir os olhos e perceber o mundo... Prisões à parte.

Imagem: The Sorceress © John William Waterhouse

carladias.com

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Um dia vai existir um livro assim: "Enciclopédia dos Personagens de Carla Dias". :)

Carla Dias disse...

Adorei, Eduardo!
:)