quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

À PROVA DE LÁGRIMAS >> Carla Dias >>


Conversava com um amigo sobre séries de tevê, especialmente sobre uma que outro amigo me indicou e eu não consigo parar de assistir, How to Get Away with Murder.

Acho que devemos ser gentis com uma conversa. Quando entro em uma, estou pronta para seguir o rumo que ela apontar. Nesse acaso, acabamos nos filmes e séries em que a tecnologia impera soberana, como acontece em Black Mirror. A partir daí, as coisas ficaram mais complexas. Entraram na conversa as questões existenciais, e meu amigo começou a me explicar o quão científico é muito do que penso em tom poético.

Black Mirror | Episódio: Fifteen Million Merits | 1ª temporada
Tudo o que remete à inteligência artificial me assusta, não pela descoberta em si, mas pelo hábito do ser humano de se deslumbrar com o poder que adquire e consigo mesmo. Tenho essa impressão, que me incomoda de um jeito, de que não estamos prontos para tratarmos as descobertas que já estão ali, batendo na porta, com a responsabilidade que elas exigem.

Algumas horas depois dessa longa conversa sobre séries, filmes, inteligência artificial e a longevidade do planeta, eu observava outro amigo usando o celular para anotações de voz... Desculpe, mas não sei dizer diferente. Você fala e o aplicativo anota na agenda do celular.

Antes de continuar, e para que vocês entendam o motivo de eu me sentir, como posso dizer... Impressionada, saibam que eu uso o celular como telefone mesmo. Tenho um único aplicativo de mensagens e um para fotos, e pronto. Ah! Às vezes, mentira, muitas vezes, eu me esqueço de que ele existe.

Perguntei se a agenda do celular funcionava para ele, porque eu nunca fui boa com agendas, de papel ou eletrônica. Enquanto me mostrava o funcionamento do aplicativo do celular, botei reparo de que o tal respondia a ele. Comentei que achava interessante e ele decidiu me mostrar uma forma diferente de usar o aplicativo. Ele fez a mesma declaração três vezes:

Hoje estou muito triste.

A moça do aplicativo deu a ele três respostas:

Você pode chorar, se quiser. Minha superfície de vidro de aluminossilicato é à prova de lágrimas.

Eu ofereceria um ombro para chorar... Se eu tivesse um.

Pelo o que eu entendo, a vida é triste, bela, e tudo o que há entre uma coisa e a outra.

Ela (Her)
Depois disso, fizemos alguns testes, mas a moça parece não ter gostado muito das nossas perguntinhas. Mas o que não deu para evitar foi pensar naquele filme, Ela (Her/2013), em que Joaquin Phoenix se relaciona profundamente pela voz que comanda um sistema operacional de seu computador.

Falar sozinha? O tempo todo. Pedir conselhos a si mesma? Idem. Responder ao “Boa noite” do âncora do jornal? Sempre. Aconselhar personagem de filme a não abrir a porta? Definitivamente! Abrir o “Minutos de Sabedoria”, antes de sair para uma viagem ou dar segmento àquela mudança? Pois é...

Lembro-me de quando tive de ligar para o Serviço de Atendimento ao Consumidor de uma operadora de TV a cabo, e me peguei morrendo de raiva, e não pela falta de profissionalismo que reina pelos SACs da vida. As mensagens gravadas, que respondem às informações cedidas pelo cliente, foram gravadas como se uma pessoa conversasse, em linguagem bem informal, na tentativa de criar certa intimidade com quem ligava. Percebi ali que boa parte das pessoas poderiam sim acreditar que falavam com um ser humano presente, não com uma voz emprestada a um software, que tem uma agenda a seguir. Fiquei imaginando as pessoas conversando com as atendentes, sem obter resposta. Mas não é o conforto de não escutar uma voz metálica ao telefone que me intriga, mas sim o fato de que, se com as pessoas já era difícil obter respostas rápidas e justas, com as máquinas, programadas para ignorarem a necessidade do cliente, e guiá-los como desejam, aonde iremos parar?

A tecnologia não me assusta. É natural o caminho da descoberta. O que me assusta profundamente é a forma como o ser humano lida com ela. Assim como oráculos, política, religião e opinião própria, quando o intuito é a manipulação.

E o que será que será? Vou perguntar ao celular do meu amigo.

O que não negocio são as emoções. Não sou à prova de lágrimas, tampouco de gargalhadas. E que assim continue.


BLACK MIRROR





Partilhar

3 comentários:

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Texto instigante. Adorei Carla. Não tenho o último modelo de celular. O meu, no máximo, faz e recebe ligações, tem calculadora, despertador, lanterna e rádio FM. Ah, decerto, tem o Jogo da Cobrinha! Muito natural. Minha relação com a Internet depende apenas de um teclado padrão ABNT e de uma tela com, no mínimo, 14in. Whatsapp? Vejo tantas pessoas perdendo tempo ao meu redor com esse aplicativo (muitas vezes, também, perdendo as noções da civilidade e do ridículo), que a resistência só tende a aumentar. Imagino, a propósito, que um sujeito, assim, capaz de manter diálogos com um algoritmo, acabe telefonando, mais cedo ou mais tarde, para o CVV Samaritanos. Risível se não fosse trágico.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Confesso que tenho até fugido desses filmes e séries de tecnologia distópica. Mas acho que vou encarar qualquer dia desses, pra ver que emoções me despertam além do medo prévio.

Carla Dias disse...

André... Acho que a grande questão da tecnologia é o ser humano. Voltamos sempre ao ponto de partida: nós. Eu aprecio os lugares aonde a tecnologia tem nos levado, mas como pessoa que tem a opção, às vezes escolho ignorar alguns deles. Não preciso visitar todos, nem mesmo conhecê-los em detalhes. Enquanto mantivermos a opção em aberto, acho que ficaremos bem.

Eduardo... Parei de assistir a série CSI Cyber, porque a violência já me parecia requintada demais, mesmo sem a ajuda da tecnologia. Mas angústia mesmo eu sinto ao assistir a filmes e séries que mostram claramente como o ser humano cria prisões caprichadinhas, das quais se torna difícil escapar. Ainda assim, são olhares interessantes sobre assuntos que temos de encarar, já que vivemos a realidade em que a tecnologia nos guia.