quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

CAÇADORA DE LAMBRIS >> Carla Dias >>


Minha avó tinha uma disposição inesgotável para conhecer lambris. Era de uma indecência a forma como ela praticamente invadia o emocional das pessoas, valendo-se de histórias sobre sua infância, apenas para ser convidada a entrar nas casas delas e botar seus grandes e azuis olhos em tal peça. Minutos depois, desejo saciado, ela bradava: belíssimos!

Ela nunca encontrou lambris que pudessem mudar sua palavra final, aquela que, com o decorrer dos anos, compreendi como sendo o ponto final de sua jornada na casa alheia. Depois dela, a senhora esquisitinha, de um jeito aprazível, com a elegância que sempre lhe coube, partia e deixava ao dono da casa a sensação de ter sido visitado por alguma entidade.

Penso em minha avó nesse cenário tão diferente daquele que marcou minha infância; de pessoas que falam mais alto do que as outras, temerosas de não serem ouvidas e perderem seu espaço.

Mas que espaço é esse?

Eu tentei ser caçadora de lambris, quando menina. Sonhava em herdar o cargo da minha avó, só porque desejava profundamente dizer a última palavra, antes de deixar o recinto. Costumava ficar repetindo "belíssimos!" bem baixinho, enquanto acompanhava minha avó, que não era mulher de conversa, muito raramente me oferecia um longo abraço e um copo de leite.

Silenciosamente, conversávamos saudade e pausas.

Minha mãe me alertou que melhor era eu parar com aquela história. Preocupou-se com a minha teimosia em me tornar caçadora de lambris. Houve um dia em que, decidida como jamais me sentira antes, abri a porta e saí para testar minha habilidade em fazer as pessoas abrirem as portas de suas casas e me deixarem observar seus lambris, por alguns minutos. Logo na primeira porta, fui devolvida ao meu lar pela nossa vizinha, que ainda me passou um pito sobre o perigo de criança andar sozinha por aí.

Sendo sozinha quase o tempo todo, pergunto-me: que solidão é essa?

Eu cresci, minha avó envelheceu ainda mais, o que me parecia impossível quando menina. Ela raramente me dirigia uma palavra. Quando o fazia, belíssimos era o que lhe escapava. Suas ideias já andavam confusas e minha mãe já não me convencia mais com suas explicações sobre como era irreverente aquela senhorinha.

A senhorinha partiu desse para outro mundo, quando eu ainda relutava em deixar de ser criança.

Deividimateus disse mais alto, só que Edilberto o superou. Getulina sacudia a cabeleira, mostrando, aos cachos soltos, o quanto era contra o que os outros dois berravam. Marconildo chegou ao cúmulo de subir na cadeira e abrir os braços, reverberando sua opinião, o que só inspirou Leidilaura a sair do seu sempre profuso silêncio para escancarar com a gritaria dos outros.

Segredos contados porque você é uma criança têm data de validade. Se os adultos se lembrassem do quão doloroso pode ser desvendar alguns deles, talvez os mantivessem também quando adultos. Mas acontece que adultos gostam de desfiar segredos na hora do chá ou durante o comercial, na pausa da novela. Adultos gostam de perguntar mas como você não sabia?, fazendo questão de que o receptor de tal revelação se sinta, além de surpreso, um incapaz de ter percebido.

Durante parte da minha infância, meu sonho foi me tornar caçadora de lambris. Achava de uma lindeza aquele olhar que se apossava de minha avó, quando decidia entrar na casa de alguém para conhecer os seus lambris. Eu queria aquele olhar. Por incrível que pareça, enquanto assisto a essas pessoas defenderem ponto de vista, espaço e identidade, e seus empregos, obviamente, lembro-me daquela senhorinha estudando portas... As portas que a separavam de sua adoração por lambris. O frenesi dessas pessoas me leva ao apaziguamento que eu encontrava naquele momento com minha avó.

Quando minha avó morreu, nasceu em mim uma saudade imensa. Minha mãe tentou me explicar que eu aprenderia a lidar com a perda. Não entendi, na época, mas lidei com a perda, eventualmente... Não sem antes rabiscar cadernos e mais cadernos com histórias sobre a caçadora de lambris, aquela menina que entrava na casa das pessoas, admirava lambris e partia, deixando na casa um tanto de si, aquele tanto que fazia bem às pessoas que abriam suas portas para ela. Na verdade, essa menina fazia mais do que minha avó. Ela se envolvia na vida das pessoas, gostava de escutá-las e, antes de partir, entregava a elas um voucher para que realizassem um sonho próprio, mais tarde. E a menina observava tudo, de uma tela de computador enquadrada em lambris.

Revelaram-me os segredos que somente a infância poderia manter. Meu avô eu nunca conheci, morreu antes do meu nascimento. Mas soube, finalmente, que ele era um artista e sua especialidade era fabricar lambris. Em plena modernidade, com a tecnologia colaborando para facilitar a vida de todos, imaginar meu avô construindo lambris artísticos me refrescava o espírito, mesmo sem entender muito bem o que eram lambris artísticos.

Minha avó não se recuperou da ausência de meu avô. Não tardou, ela deu de vagar pelo bairro, pedindo aos vizinhos para deixá-la ver se os lambris de suas casas eram tão belos quanto os que seu marido criava. Com o tempo, todos já sabiam do que se tratava e das suas crises, permitindo sua entrada.

Onde eu via sutileza, beleza e encantamento das pessoas pela minha avó, havia somente conhecimento de causa e um bom tanto de gentileza.

A Caçadora de Lambris se tornou mais do que rabiscos em cadernos. Tornou-se personagem que vem inspirando o imaginário infantil. Mais do que livro, tornou-se a editora que fundei há alguns anos. Esses seres espalhafatosos trabalham comigo, e eu não poderia estar cercada de pessoas mais generosas... Apesar de ser quase impossível perceber isso durante as reuniões.

De certa forma, tornei-me quem sonhei me tornar, enquanto caminhava com minha avó, passando pelas casas do bairro, entrando e saindo de lá como se fosse conduzida por mágica. Meus lambris, devo dizer, são belíssimos. Às vezes, eu me perco do presente e chego ao passado, abraço a mão de minha avó e a acompanho a mais uma caçada por lambris.

Sempre pensei que atrás dos lambris moravam histórias. Não estava completamente errada.


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3 comentários:

Lilu disse...

Mais um lindo texto, Carla.
Grata.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Mais uma bela profissão, Carla.

Carla Dias disse...

Ah, Lilu... Eu que agradeço por você dar essa parada por aqui e ler minha crônica. Beijo.

Pois é, Eduardo... Pensando seriamente em fundar meu próprio sindicato. :)