quarta-feira, 26 de setembro de 2012

É MAIS ALÉM >> Carla Dias >>

A lua metafísica na poça de lama,
Ponteiros que disparam
Ao contrário das horas
Hora de saber o que mudou em você,
Que olha no espelho e não vê ninguém
É mais, é mais, é mais, é mais além
"Mais Além", de Lenine, Lula Queiroga, Bráulio Tavares e  Ivan Santos

Eu não sei contar horas, sou dissoluta e redundante quando se trata de contabilizar minutos. Esmaeço, a palidez enobrece o impossível ato de memorar segundos. Eu não sei fazer hora, porque me atropelam tantos pensamentos que nem sei quantos, e acabo correndo porque necessito de vento na cara, de mudança de cenários.

Certa vez me chamaram desagrado, porque teimava em não concordar com o definido, que era mesmo um pensamento padronizado dando cabo do destino de algo maior, muito mais humano, aquém das horas, dos minutos, dos segundos. Algo que não cabia em respostas preparadas, em decisões ancestrais, na geometria das certezas. Percebi, então, que desagrada a muitos o fato de ser preciso pensar o ser humano também como indivíduo, indo além das estatísticas e dos manuais.

Ir além pede dedicação e parcimônia, mas vale a pena. Quem vai além descobre o que realmente importa. Eu sei que o planeta é enorme, assim como os problemas que se abatem sobre ele, que não há como sermos próximos de todos os seres que nele habitam. Só que existe a empatia, ela nos ajuda nisso, colabora para nos conectarmos com pessoas do outro lado do mundo, com aqueles que jamais encontraríamos, dos quais jamais saberíamos se não fosse pelo despertar desse sentimento. A empatia alimenta as conexões necessárias para melhorar a vida de muitos. Há aqueles que se enveredam em nossas vidas simplesmente porque pensaram em nós como pessoas, como indivíduos, não como nomes em listas de espera, números de identificação, protocolos.

Às vezes, é preciso deixar de lado os relógios, os indicadores de que não há tempo para se pensar no outro com a atenção que ele merece. Na verdade, é preciso tratar-se com o mesmo esmero, reconhecer a importância que há nesse gesto, para então tratar o outro da mesma forma.

Em horas, minutos, em segundos a vida da gente pode mudar drasticamente. Tudo pode ser tirado do lugar e nos fazer sentir sem chão. Muito pode ser modificado de forma a tornar a vida mais interessante. E mesmo para os que têm pressa, que não sabem contar tempo, que vivem à mercê dos muitos pensamentos pipocando ao mesmo tempo, uma coisa é certa: às vezes é preciso parar, respirar e começar de novo.



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