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CORAÇÃO DESABITADO >> Carla Dias >>


Essa crônica é para as moças e os moços que ainda estão com seus corações desabitados, não pela falta de desejo pelo amar alguém, mas pela falta do alguém mesmo. Mais que isso, é para aquele que, além de almejar encontrar uma pessoa para chamar de “minha pessoa” - no sentido afetuoso do negócio, não no sentido possessivo descabelado - tem de passar pela prova de fogo de ser praticamente o único solteiro entre o seu círculo de amigos. E acaba se transformando, inevitavelmente, em projeto de vida dos próprios, que não aguentam mais vê-lo sozinho, e na vítima dos encontros às cegas, dos bailes de solteiros, do chororô da mãe que acha que sua cria morrerá sozinha e infeliz.

Ter coração desabitado pode abrir um leque de possibilidades...

Você pode ler todos os livros do Nicholas Sparks, ou se for tipo cinema, assistir aos filmes baseados nos livros do Nicholas Sparks. E de duas, uma: ou isso inflamará a sua esperança em encontrar alguém que caiba no seu destino ou você dará fim a um pacotinho de lenço de papel. Acabando em um ou em outro será menos constrangedor do que o churrasco organizado por aquele casal de amigos com os primos ou primas solteiros dos outros amigos deles, pessoas que eles não conhecem, mas de acordo com os outros casais de amigos, são especiais. E podem ser mesmo... Mas não para você.

Uma pessoa com o coração desabitado pode se perder nas conversas dos amigos comprometidos com as suas devidas pessoas. Com sorte, ela poderá participar de ¼ das conversas que não envolvam desfechos dos programas em duplas ou as roupinhas compradas para os bebês que estão chegando. E por mais que você adore a ideia de se tornar tia ou tio dos filhos dos seus amigos, de até se oferecer como babá dos pimpolhos para que os pais dele possam dar uma escapadinha romântica, chega a hora em que vai parecer que eles estão falando outra língua. E talvez a conversa que faça mais sentido você tenha mesmo é com os bebês.

A imaginação de uma pessoa com coração desabitado pode ser bem interessante. Em uma semana, ela pode ter encontrado sua pessoa na estação de metrô, em um jantar em algum restaurante chique, em uma missão secreta da polícia, em um show de calouros, em um resgate de tartarugas, em uma remota cidade europeia. Há quem imagine tais encontros com a rapidez de quem quer chegar logo à parte dos beijos e agarramentos. Há quem aprecie criar todo um enredo, fazendo a si mesmo sofrer o diabo para conquistar aquele que o habitará daquele momento em diante, agregando à conquista o valor de uma verdadeira batalha para alcançá-la. Fato é que esse não é o tipo de conversa que cai bem entre os amigos de coração habitado ou que a sua mãe ficará feliz em saber. Por mais prazeroso que tenha sido esse passeio para a pessoa de coração desabitado, a tradução feita pelos afetos será sempre que ela está morrendo de solidão, por isso fica imaginando besteiras e impossibilidades.

A grande questão é que tudo começa na imaginação. Antes de serem pares, os de coração habitado imaginaram suas pessoas. Alguns buscaram por elas, outros foram surpreendidos ao perceberem que elas eram mais do que imaginavam. Não que você, o solteiro de plantão, vá encontrar sua pessoa de acordo com as reviravoltas da sua imaginação, como se adaptasse o livro de sua autoria não para o cinema, mas para a vida real. Porém, as chances de encontrá-la aumentam de acordo com a liberdade que você oferece às possibilidades. É nisso que a imaginação ajuda.

Para você, pessoa de coração habitado, que é amigo ou parente de uma pessoa de coração desabitado, não se preocupe. Nicholas Sparks é bacana, os filmes baseados em seus livros são bem legais, esperança é sempre bem-vinda. E, na pior, um pacote de lenço de papel é barato. Ser vitimado pelos eventos organizados por você, com intuito de achar quem faça par com seu amigo, pode ser recebido com esgares do indivíduo de coração desabitado, mas ele, eventualmente, reconhecerá que é apenas seu jeito de lhe desejar a felicidade.

Mas, por favor, não torne isso um hábito, ok?

Quem tem o coração desabitado, que ainda está em busca da sua pessoa, pode aproveitar a espera para compreender que, às vezes, basta colocar a placa no lugar certo, com bom gosto e sutileza: coração pronto para ser habitado.

Comentários

Zoraya disse…
Carla, agora é definitivo: escreve logo esse livro.
Carla:

Você sempre perfeita! :)
albir disse…
Carla,
Marisa sabe tudo. Perfeita.
Carla Dias disse…
Zoraya... Menina, você já me fez colocar um na lista (o das profissões inusitadas) e agora esse? Vou parar agora de trabalhar e me dedicar somente a escrever :)


Marisa... E sempre envergonhada com tanta gentileza sua...


Albir... E sempre envergonhada com tanta gentileza sua... (2)

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