sábado, 15 de setembro de 2012

O LEILÃO [Ana González]

Será uma espécie de leilão. A casa vai ser desfeita. Quem vai ficar com o quê? E as pessoas que vão comprar o que sobrar, quem são?

Despeço-me dos objetos. Não, não sou apegada tanto como pode parecer e eu nem morei lá. É que tudo tem uma história. A cristaleira cheia de copos e a sopeira na mesa da sala de jantar. Aquela estante de livros com portas de vidro do escritório.

Dói. Se eu tirar fotos dos cantos consigo segurar o que há por lá? Pensando bem, isso nem seria justo comigo. Para quê, depois de tantas crises? Mas que família é diferente disso? Vejo famílias como caldeirões do inferno. Essa imagem é forte e um tanto caricata, mas não longe da verdade. Tá bom, há também um pouco de paraíso: o cheiro do bolo da mãe, as risadas, a comida fumegante. Risadas? Quando mesmo?

A tapeçaria comprada em viagem. As peças em metal dourado com desenhos lindos e os elefantes cravejados de pedras coloridas. Um pouco de mim ficou lá longe, testemunhando na distância. Um muito de mim ficou nesses objetos em cima da mesa de canto, ao lado do sofá grande e fofo. Lugar conveniente para uma espécie sutil de fuga.

Fotos? Não sei ao certo o que precisaria registrar. Talvez fotos de mim mesma, deste pedaço de mim que encravou nessas peças e naquele tempo em que meu pai e minha mãe eram meu pai e minha mãe. Depois foi ficando tudo estranho enquanto as paredes foram amarelecendo. De que cor são as paredes agora? Parece que a casa emudeceu.

A coleção de slides dos museus do mundo. A enciclopédia em inglês. Os cinzeiros de cristal e o par de ânforas azuis. As largas cortinas da sala pesando no chão.
A máquina fotográfica poderá me ajudar? Qual será o truque para guardar numa imagem a intensidade do momento, aquele décimo de segundo que diz tudo? Não, não há salvação. Tudo será perdido com o tempo. Sobrará a memória confundida com pedaços de minha imaginação.

Talvez eu saiba o que dói. Em poucos dias, duas ou três semanas, tudo irá embora. As experiências, todas as dores e alegrias. É como ter de largar um pedaço do meu tempo de vida, da minha história, que está mudando.

O que virá depois? O que será que vai acontecer quando sobrar o vazio do que foi habitado? O que pode conter o vazio de um apartamento? De um tudo continuará pairando no ar em nível imponderável. Quando os objetos e móveis forem embora, haverá ainda muito.

Quando o vazio chegar, ficará à mostra a solidão daquelas paredes, que hoje estão cheias de vida, de quadros, de cadeiras encostadas. Ficarão as sombras das pessoas, de risos e de gritos sussurrados de angústia.

Amanhã será a ausência plena, um vazio perturbador. Poderá ser diferente disso? Talvez se eu olhar para a janela enorme da sala, eu possa ver o verde das árvores do jardim. Será um espaço aberto com céu à mostra. Poderei olhar para fora, à frente, tentando vislumbrar o futuro, depois do ontem, depois do hoje. Essa imagem traz um alívio. Mas ainda surgem sensações vagas, medo, ansiedade. Depois de um vazio, o outro vazio quem sabe o que será?

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4 comentários:

albir disse...

Ana
Tive vontade de dizer que era antecipação da nostalgia ou da saudade. Mas não é tão simples. Tanto que você precisou de toda uma crônica para traduzir bem o sentimento.

Ana González disse...

Quiçá ainda esta crônica não tenha expressado tudo que vc pode ter sentido e eu também, Albir. A parceria de sua leitura talvez alivie os sentimentos. Isso sim é bom.

ana claudia disse...

Oi Ana,
Que texto tocante e melancólico, mas não haveria como ser diferente...Eu entendo muito bem esse seu sentimento.
É preciso viver com dignidade a tristeza, as saudades e despedidas e por aí afora.
Eu senti essa dignidade na sua crônica.

um abraço e espero que estejas bem.

Ana Claudia

Ana González disse...

Diginidade? Bonito isso, Ana Cláudia, bem a sua cara. Obrigada! bjss