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EDUCAÇÃO MINEIRA >> Whisner Fraga


Eu era nerd, todo mundo sabia, e meus pais desconfiavam. Pais têm a tendência de achar que filho é a última bolacha do pacote, né? Os meus eram muito rígidos e davam mostras de não valorizar muito o que fazíamos. Acho que só fui ouvir um elogio deles quando passei dos vinte e um e foi algo do tipo: “é, não tá de todo ruim não.” Caramba, uma vez fui chamado à sala, aquele clima de puxão de orelha e tive de escutar: “é, meu filho, e esse nove aqui, o que aconteceu?” Entenderam? Não aceitavam que eu tirasse menos de nove e meio.

Aí eu ponderava que podia haver algo errado. Acho que as famílias ituiutabanas são um pouco incoerentes. Ou será um privilégio dos mineiros? Eu rebatia: “uai, mas o meu irmão só tira vermelho e ninguém cobra um nove e meio dele!” Cada um dentro das suas capacidades, argumentavam. Ou seja: se eu começasse a vida estudantil só no quatro, quatro e meio, ninguém ia discutir. A partir dessa época, comecei a achar que a história de gostarem do mesmo tanto de todos os herdeiros era balela.

De modo que não recomendo a educação mineira como referência para a formação de uma auto-estima adequada, de bom-tom. Feito esse preâmbulo, posso começar o assunto da crônica. Eu era nerd. Imaginem o Leonard, do seriado “The big bang theory”. Nunca viram, né? Recomendo. Eu era mais ou menos aquilo, tirando a inteligência, lógico, que a minha sempre foi mais fruto do esforço do que um presente da genética. O que não quer dizer que não me interessava pelas garotas, evidentemente. A diferença é que elas eram, naquela época, algo como a mecânica quântica, ou seja, inatingíveis.

Então começaram um boato: tinham escutado meu nome na FM. Alguém me dedicava uma música. Isso afirmavam amigos, fofoqueiros e irmãos. Lógico que era armação, evidente que haviam combinado tudo entre si. Não me abalei e decidi ver o resultado daquilo. Tá, tá, tá, não ouviram Wisley em vez de Whisner? Pô, eu nem gosto de Air Suply e assim por diante. Olha só, convenhamos: as mineiras não agem assim, não são de se atirar e de oferecer o que quer que seja em público. Não sei se hoje tudo mudou, mas naquela época elas eram, de modo geral, dissimuladas.

De qualquer maneira, fiquei também com uma pulga me enchendo o saco: e se fosse verdade? Não era, claro, mas e se fosse? Um nerd só passa a ter sentido para as mulheres quando elas passam dos trinta e começam a encarar a formação de uma família e a subsistência confortável da vastíssima prole como prioridades. Antes disso, importam os bíceps bem trabalhados e os rostinhos bonitos. Não sei se hoje eu enxergo pelo lado bom, ainda não examinei o assunto minuciosamente, mas foi minha mãe que pôs um ponto final em qualquer possibilidade de recado em uma rádio, com o coerente e irrebatível esclarecimento: “claro que é mentira, menino, onde já se viu alguém se interessar por você?”

Comentários

Zoraya disse…
Whisner, sem querer ser sádica, essas suas memórias estão cada vez melhores e mais engraçadas. Já disse uma vez e repito: você é um forte. Por menos que isso e algumas parecenças, tive que fazer terapia... Beijos ainda risonhos
Ana disse…
Beleza de crônica Whisner!! E a propósito, eu também recomendo o TBBT. Abraços
albir disse…
Muito bom ler suas reminiscências, Whisner.
Fabí R, Boratto disse…
Gostei muito e me identifiquei com seu relato. Parabéns , você escreve muito bem !
att Fabiana

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