quinta-feira, 27 de setembro de 2012

TAN TAN TAN TAN >> Fernanda Pinho




Sempre me emocionei com a Marcha Nupcial. Aquele “tan, tan, tan, tan” inicial me arrepia da cabeça ao dedão do pé em qualquer circunstância. Até em casamento de novela. Não por um acaso, uma das primeiras decisões que eu tomei assim que fiquei noiva foi a de que eu não abriria mão da execução da Marcha Nupcial no meu casamento. Ok. Quem eu estou querendo enganar? Sejamos francos, já que estamos entre amigos. Eu tomei essa decisão muito antes de conhecer aquele que seria meu noivo e marido. Isso foi há tempos, quando eu tinha, sei lá, cinco ou seis anos de idade.

Desde então, minha imaginação, romântica como poucas, trabalhou em um milhão de cenas minhas entrando numa igreja. Nos meus delírios, tinha me pai me levando ao altar, um buquê amarelo, minha mãe, minha irmã, meus amigos me olhando caminhar sobre o tapete vermelho. E, claro, tinha a Marcha Nupcial. A única coisa que não constava era o noivo, que sempre aparecia no meu sonho como um espectro. Até eu conhecer a única pessoa que, de verdade, despertou um mim o desejo de transformar o sonho em realidade.

E, vocês sabem, realizar sonhos emociona, a Marcha Nupcial emociona, o amor emociona e, por tudo isso, meses antes do casamento, comecei a desenvolver estratégias para não entrar na igreja vertendo litros de lágrimas e perdendo toda a minha superfaturada maquiagem de noiva.  Foi então que eu criei a modalidade de choro pré-pago. Todo dia eu me imaginava entrando na igreja e chorava, como chorava. Mas essa era a ideia. Chorar tudo o que eu tinha direito previamente, para não ter tanta vontade na hora exata. Também decidi eleger um ponto fixo e olhar só para ele.  Estava claro para mim que eu não poderia olhar para ninguém, porque as pessoas choram em casamentos e vê alguém chorando para mim é convite a fazer o mesmo.

Só faltava decidir o que fazer com meus pensamentos. Aliás, o que pensam as noivas a caminho do altar? O que eu pensaria naquele momento? Pensaria nos outros casamentos em que estive presente e me emocionei acreditando que, apesar dos meus sonhos, aquilo nunca me aconteceria? Pensaria naqueles caras babacas pelos quais desenvolvi alguma paixonite e quase me fizeram desacreditar no amor? Pensaria nas pessoas que estavam ali presentes e nos momentos deliciosos e desastrosos que elas haviam dividido comigo? Pensaria na minha história com aquele homem que me esperava no altar? Ou deixaria os sentimentos de lado e simplesmente me preocuparia em caminhar com elegância e tentar captar se as pessoas estavam ou não gostando do meu vestido?

Isso não havia como prever ou programar. Só havia um jeito: respirar fundo e ir. Foi o que eu fiz, ao descer do carro e ir ao encontro do meu pai que me esperava na escada da igreja. Nessa hora, quase duvidei da eficiência do choro pré-pago. Ao me ver, os olhos do meu pai encheram de lágrimas e seu queixo começou tremelicar. Apesar do nó que se formou na garganta, consegui dizer: “não chora, pai”. Foi a última coisa que eu disse antes de caminhar sobre o tapete vermelho, com meu pai de um lado, o buquê amarelo de outro, minha mãe, minha irmã, meus familiares e amigos me observando.  Tudo como eu sonhei, conforme pude ver nas fotos depois. Porque na hora, eu não vi nada nem ninguém. Só ele. Ao contrário do sonho, na realidade ele foi a única imagem que eu consegui visualizar. Também não ouvi nada, além do “tan, tan, tan, tan”, o tiro de largada que acelerou meu coração. Sobre os pensamentos, não tive nenhum daqueles que imaginei. Nem nenhum outro. Não vi, não ouvi, não pensei. Não sei nem se caminhei. Acho que flutuei e senti, pela primeira vez na vida, uma sensação de plenitude.   


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5 comentários:

Paula irmã disse...

E eu estou chorando até agora, quando lembro desta cena, uma das mais lindas que já vi e vivi na vida!!!
PERFEITO!!! Bjooos

Dolores disse...

Ah Fernanda... Você sempre me emociona...

Mara Bianchetti disse...

Foi impossível conter minhas lágrimas diante deste lindo texto. Há tempos planejo a mesma coisa, penso da mesma maneira, tento desenvolver alguma estratégia para não chorar na hora H também. Mas tenho certeza que, ao contrário de você, não vou conseguir. É que chorar é a segunda coisa que mais faço na vida, depois de escrever - se é que me entende. Mas vamos lá. Sigamos com a proposta e que chegue logo meu tão sonhado dia 3 de novembro!

Yuri Magno disse...

Eu, leitor assíduo das suas crônicas, Ferds, iria indicar exatamente esse texto pra Mara, essa amiga que comentou, mas nem foi preciso. E, pelo que ela falou, não surtiria efeito..rsrs.
Muito interessante saber "o que se passa na cabeça da noiva"..adorei ler e te imaginar entrando na igreja; adorei tb saber que a Mara não vai conseguir não chorar, rsrs... Senão ela perderia sua essência, rsrs....
Beijos Fernanda!!!

Débora Soares disse...

È super emocionante mesmo! Foi uma sensação que eu não conseguia descrever, mas vc fez isso muito bem! =)

As fotos de casamento captaram exatamente a minha alegria!!! rsrs

Bjs!!!