segunda-feira, 24 de setembro de 2012

NÃO >> Albir José Inácio da Silva



As goteiras deixaram no chão do barraco uma lama em que afundavam os pés. Duas velhas portas de armário formavam ilhas no barro, e era aí que elas estavam sentadas. Conceição contava o assédio de uma colega pelo chefe.


- Mãe, ele é capaz de cumprir. Não tem nada a perder. E ela precisa trabalhar.


Não tinha mesmo nada a perder. Era o encarregado, e ameaçava com demissão por justa causa quem ousasse “dizer calúnia”, que significava contar qualquer coisa que ele fizesse. E em voz baixa ameaçava também as que não fossem boazinhas.


Conceição chegou há um mês na fábrica, ele ainda não tinha proposto nada, mas seu olhar a intimidou desde o primeiro dia. Sabia, pela conversa com as outras, que sua vez chegaria. No trabalho ela se destacava, aprendeu todas as funções, terminava rápido e ajudava as colegas. Era seu primeiro emprego. Antes ajudava a mãe com a roupa e com a faxina na casa dos outros. A mãe doente não podia mais, e esse trabalho parecia a salvação. Talvez por causa do seu desempenho, ele demorou a incomodá-la. Agora era isso, curto e grosso, dá ou desce. E descer era ficar sem emprego.


Mas pra mãe ela contou diferente. A saúde frágil não podia sofrer abalos. Disse que era uma colega. Precisava desabafar e as palavras da mãe eram a única coisa que a consolava nesses momentos. A mãe desconfiou, mas não perguntou nada. Só disse que nenhuma mulher devia ser obrigada a fazer essa escolha, e contou a história de uma avó, Filisbina. História que vinha sendo repetida, não sabia há quantas gerações.


Filisbina nasceu no porão do navio que trouxe quase toda a tribo, no momento mesmo em que ele aportava no Rio de Janeiro. Sua mãe teve sorte e, apesar da barriga, chegou viva com seu moleque de oito anos. Metade dos cativos foram para o fundo do Atlântico por causa da peste, da falta de água e comida. Filisbina desceu para o cais no colo da mãe, que ainda sangrava e arrastava o outro filho.


Quando chegaram à fazenda em Vassouras, Sinhá teve pena e botou a mãe na cozinha, onde podia trabalhar e cuidar do bebê. O outro filho foi pra senzala, mas estava sempre por ali, fazendo mandados e, de alguma maneira, protegido. Filisbina cresceu no quintal da Casa Grande sob o olhar carinhoso da mãe.


Mas outros olhos acompanhavam Filisbina, que ainda era uma menina mas já tinha jeito de mocinha. A Bíblia diz que o diabo pode assumir qualquer forma. E os escravos diziam que ele, às vezes, era um moço bonito. Sinhozinho voltou da Corte, onde tinha ido estudar e não estudou, gastou dinheiro e se meteu em confusões. Quando ele viu a menina crescida, achou que era hora de dar o bote.


(continua em l5 dias)


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4 comentários:

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

A história se repete da Colônia ao chão da fábrica. O texto é conciso. Vai direto ao assunto como uma narrativa curta deve "fazer". A presentação rápida de personagens e, através do discurso direto (a primeira fala), somos lançados ao centro do conflito. Parabéns! Procuro usar e abusar desses recursos amigo.

Marisa Nascimento disse...

Albir,
Agora você, além de ótimo escritor, está me saindo um excelente sádico. :)
Como assim? Continua daqui a quinze dias? Isso é assédio cultural. :)
Mas tudo bem, contando os dias. Faltam praticamente 14.
Beijos

jufurtado disse...

Tio Albir como sempre esbanjando talento ao escrever. Talento nato e genético, certo? rs
Gostei muito, mas ter que esperar 15 dias é uma tortura intelectual... Aguardo ansiosa.
Júlia Ignácia

Debora Bottcher disse...

Rá! Acabei te enganando: li a segunda parte antes dessa e burlei o tempo... :) Belíssima história. Beijo.