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PATRIMÔNIO >> Albir José Inácio da Silva

- Alguém viu o meu sol?

Ouço Rebeca perguntar, e não parece brincadeira. Tem pressa, está concentrada como se de fato procurasse alguma coisa. Fico confuso. Pode ser gíria. A internet cria um novo idioma a cada dia, e sol deve ser o nome de alguma modernidade.

- Rebeca, por que pergunta pelo sol, e ainda diz que é seu?

Ela me olha com espanto como se não tivesse perguntado nada. Era uma boa menina, antes de começar a falar essas bobagens. Boa filha, boa aluna, depois começou a trabalhar e ficava me contando do trabalho. Desconfio que tinha lá suas escorregadelas: dizia dormir na casa de amigas pra fazer pesquisa, e eu não acreditava muito. Mas a mãe apoiava, e acho que vem daí a cumplicidade.

Otávio foi quem mais me surpreendeu. Desde pequeno íamos ao futebol, fazíamos juntos os deveres da escola, éramos amigos. Isso incomodava um pouco à mãe, e o ciúme pode ter desencadeado tudo.

É ele quem entra agora, também apressado, dizendo que vai a Marte ver um novo trabalho. Eu finjo que acredito, irônico.

- Não tinha emprego mais perto?

- Não posso escolher, meu velho. Os tempos estão difíceis. E eu já trabalhei em lugares mais distantes.

Sai, aparentando normalidade e paciência comigo.

A bruxa não. Essa nunca me enganou. Trinta anos de fingimento. “Benzinho pra cá, comidinha pra lá, não fique nervoso, vai passar, é só uma fase ruim”, mas sei que já elaborava. É a chefe da quadrilha. Nunca ouviram falar de gente que constrói a loucura do outro? Trocam coisas de lugar, inventam mentiras e vão roubando as certezas que sustentam a vítima, até que ela acredita na própria maluquice.

Querem o meu dinheiro. Já veio até advogado pra me convencer de que eu não tenho mais nada. Forjaram documento de cartório e sentença pra dizer que estou falido. Preciso voltar ao escritório, dar ordens, comprar mercadorias, como sempre fiz.

Vou aproveitar que daqui a pouco a bruxa também vai sair. Diz que agora tem de trabalhar, pensa que me engana. Está só esperando a nazista chegar, de farda branca, com ordens e pranchetas como um Mengele de saias. E chega sorridente. Ou debochada.

-Tudo bem, doutor? Está com ótima aparência hoje.

Dissimulada. Ela também faz parte do esquema, junto com a bruxa, os filhos da bruxa, médico, advogado e até vizinhos. Não sei ao certo quantos são, sempre aparece um novo traidor. Mas aguardem, é por pouco tempo.

Hoje eu acordei com a cabeça mais leve. Agora aprendi. É só tirar os comprimidos da boca quando a SS se distrai, e fico assim, lúcido, no controle de minha razão. Onde estão os meus ternos? Talvez eu devesse ir de quimono, afinal, é uma briga.

Agora preciso me apressar. Tenho que rasgar estas páginas. Prometi ao editor fazer isso com as crônicas a cada quinze dias.

Comentários

Carla Dias disse…
Um flerte com a loucura, Albir? Os loucos são sãos o suficiente para brincar de fantasia.
albir disse…
Adorei, Carla, "flerte com a loucura". Nem eu sabia que era tão isso!
Os ladrões das nossas certezas estão por toda parte Albir.
Albir,
Saudades de te ler e adoro essa sua versatilidade.
Bjs
Zoraya disse…
Nossa! Esse pequeno ensaio sobre a loucura é prenúncio do que está por vir, é? Quero mais!
albir disse…
Verdade, André. E anônimos.

Marisa,
que saudade! Seu silêncio nos tortura, mas conforta saber que você está sempre presente.

Claro, Zoraya, e com a reforma antimanicomial aumentam as chances do cronista continuar solto.

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