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MINHA TÃO GRANDE CULPA
>> Zoraya Cesar


Bom dia, Padre Tércio, sou um pecador, vim me confessar.

Meu Deus, eu me arrependo de todo coração por vos ter ofendido, porque sois tão bom e amável. Prometo, com a vossa graça, nunca mais pecar. Meu Jesus, misericórdia! 
(Pequeno Ato de Contrição)

Escolhi-o para ser meu novo confessor porque o senhor é um homem de estudos e também de ação. Sei que trabalhou nos seringais, defendeu índios e desvalidos, foi ameaçado de morte... O senhor sabe o que é a vida real, longe das novelas e dos filmes, a vida real está nas sombras que as pessoas comuns não veem. Eu conheço o senhor. Eu já salvei a sua vida.

E agora vou lhe contar a minha história.

Sempre fui um ativista, Padre, sempre participei de ações sociais e políticas em prol dos pobres, dos abandonados pelo poder público. Mas nunca me senti realmente satisfeito, achava que fazia pouco. Era católico praticante, observador dos preceitos, dizimista, mas hoje venho confessar que violo o primeiro dos mandamentos.

O senhor levou um susto, Padre, sei que não esperava algo tão grave.

Vou resumir a história, que essa vai ser uma longa confissão, e, creio, a primeira de muitas. Um dia, almoçando com uma amiga, começamos a conversar sobre o Bem e o Mal, sobre ajudar e proteger os bons e pacíficos, os mansos e os inocentes, e ela me convidou a conhecer conhecer uma empresa, uma ONG dedicada a isso. Ora, Padre, eu conheço várias ONGs, sou um ativista, conforme lhe falei, mas dessa eu nunca ouvira falar.

Enfim, fui conhecer a tal ONG, uma sociedade secreta mantida por um dos homens mais ricos do mundo, que a mídia e o mundo não conhecem, e do qual seus sócios e parceiros comerciais nem desconfiam. Essa sociedade treina homens e mulheres para investigar, perseguir e entregar à polícia pessoas que roubam, matam, traficam ou prejudicam a sociedade de alguma forma. Ninguém jamais desconfia da sua atividade, seus familiares e amigos pensam que você trabalha numa grande empresa comercial, por conta da qual você viaja muito. E você escolhe o ramo em que quer atuar. Tem gente que investiga tráfico de pessoas, outros investigam políticos ligados a redes de corrupção e há os que, como eu, escolhem como alvo caçadores, desmatadores, perseguidores de ativistas ambientais com pouca proteção.

O senhor sabe, até porque já foi pároco nos confins do Mato Grosso, já participou de um grupo de defesa ao pantanal, eu estudei sua vida, Padre, não o escolhi à toa. O senhor sabe que lá no mato a lei é outra, muitas vezes a polícia é conivente com as caçadas, o desflorestamento, a expulsão de populações pobres para que os poderosos ocupem o terreno. Nesses casos, Padre, a gente não prende nem entrega à polícia.

Então é isso, Padre, eu mato gente. São caçadores de animais pelo simples prazer da caçada, pela maldade. É gente que tocaia e mata outros seres humanos por encomenda. Já vi uma dupla dessas matar toda uma ninhada de onça, Padre, só por matar. O senhor precisava ver a onça lambendo os filhotes mortos, e a dor dos biólogos que a monitoravam. E eu não pude fazer nada, não tive como impedir. E, naquele grotão de fim de mundo, mesmo que os levasse à polícia, quem acabaria morto de emboscada era eu. Levei o caso aos meus superiores. E fui orientado a fazer o que fosse necessário.

Da segunda vez em que passei por uma situação semelhante, não hesitei. Mirei e atirei nos quatro assassinos contratados para matar um ambientalista. Era o senhor, Padre. Não hesitei, não pestanejei. Depois, tremi e chorei a noite inteira. Aqueles eram também meus irmãos em Cristo, e a Lei diz “não matarás”.

Por isso vim aqui, Padre. Porque minha atividade é perigosa e eu posso morrer a qualquer momento, e não quero morrer em pecado, sem me confessar. Por isso voltarei aqui a cada término de missão. Porque, Padre, estou me consumindo em culpa, mas vou continuar trabalhando e fazendo o que eu achar necessário, e sei que isso contraria as leis que o Mestre nos ensinou.

Padre, confesso minha culpa, minha tão grande culpa, pequei contra Deus e contra meus irmãos. Mas vou continuar a fazer o meu trabalho, a cumprir a minha missão até que a culpa ou a Luz Divina me tragam de volta para a Igreja. Não sei se sou melhor do que aqueles que mando para outra vida. Misericórdia.

Comentários

Anônimo disse…
Cara, que culpa hein? às vezes tenho vontade de tomar uma atitude dessas também, mas tô fora.
Eu estava hesitante. Comecei a ler o texto como uma crônica, mas desisti. Não vi crõnica. Vi uma obra instigante. Explico. Colega, você teve uma ideia muito boa para um romance ou um livro de contos articulados. Menina, aproveite o toque que te dou e desenvolva a ideia, que é impar. Talvez, espero, você já esteja desenvolvendo - então eu quero ir ao lançamento da obra. Zoraya, no duro, gostei. Vejo nesse texto um gérmen de romance de ação e suspense (policial, que seja). A dica: "Por isso voltarei a cada término de missão..." levou-me a pensar em duas coisas: (1) num romance com o padre (cheio de dilemas e fantasmas na sua alma) como narraodr (a história ficaria mais interessante e misteriosa se contada pelo "ouvinte")e (2) com este mesmo narrador como mote para unir diversos contos num livro - daí a sugestão de um livro de contos articulados entre si pelo ouvinte: o padre. A ideia é incrível para um texto de maior fôlego. Sim. Existem vários dilemas na nossa sociedade que podem ser explorados num texto assim. Desculpe se invadi a sua intimidade, mas foi a minha paixão de leitor que me fez "enxergar" essas possibilidades. Parabéns! André Ferrer

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