quarta-feira, 19 de setembro de 2012

EU NÃO SOU UM CURRÍCULO >> Carla Dias >>

De alguns anos pra cá, tornou-se complicado se apresentar ao outro. Na minha cabeça moram lembranças de quando minha mãe me apresentava para as pessoas: essa é a Carla, minha filha. A partir daí, era dever do novo conhecido descobrir a pessoa que eu era e vice-versa. Levávamos certo tempo para descobrir o outro e isso era positivo.

Quando comecei a trabalhar, percebi que não bastava ser a pessoa que era. Profissionalmente, o currículo adianta o expediente, aponta o necessário, resume nossas habilidades.

Na minha compreensão, o trabalho exigia currículo e a vida pessoal exigia tempo e boa vontade para se permitir conhecer e conhecer ao outro. Era algo simples, que funcionava muito bem, que fazia sentido. Mas isso mudou.

O primeiro sinal de que seria necessário mais que um “muito prazer” para começar um relacionamento com outra pessoa, foi quando um amigo me apresentou a um amigo dele assim: “essa é a Carla, ela é baterista, toca em uma banda de Blues, junto com três caras, mora em São Paulo, é poeta, trabalha em uma escola de bateria e está escrevendo um romance.”. Tudo se complicou a partir daí.

Por mais que eu entenda que a maioria das pessoas espera por esse tipo de apresentação, esse imediatismo em saber sobre o outro, sinto-me extremamente desconfortável quando isso acontece no terreno pessoal. Profissionalmente, eu entendo. Pessoalmente, prefiro fazer perguntas a outra pessoa, a pensar nesse primeiro momento como uma reunião de aprovação de relacionamento.

É diferente quando nos apresentam a alguém e destacam algo em comum, como “Essa é a fulana e ela também gosta de cinema”, caso seja apresentada a algum cinéfilo ou alguém que escreva sobre filmes, por exemplo. A grande questão é que destacarem uma habilidade ou um gosto em uma apresentação, é uma coisa, dizer o seu currículo de cor, antes que você consiga dizer “tudo bem?”, é outra.

Além de tudo, é preciso lidar com os revezes do currículo que não bate com a fantasia criada pelo outro. Quando o currículo é apresentado sem a sua presença, como uma premissa do que será essa apresentação, as coisas podem ficar bem complicadas. Perdi as contas de quantas pessoas, que se relacionaram primeiramente com o meu currículo, passaram os dez minutos que dedicaram a minha pessoa, na apresentação presencial, questionando: “você toca mesmo bateria? Olha... Escreve poesia? Que coisa, né? Seu cabelo é enroladinho... Olha... Pensei que fosse ruim, mas até que é macio.”. Os outros cinco minutos eram de desculpas para ir embora. E sim, não sei por que, mas as pessoas adoram pegar no meu cabelo pra conferir se ele é ruim e se admirar por ele ser macio.

Resumindo: nem sempre o seu currículo descreve a pessoa que as outras pessoas esperam que você seja.

Eu realmente aprecio conhecer as pessoas com tempo. Sei que, mesmo em um mundo no qual a internet colabora em deixar claro o que fazemos da vida, nosso currículo não precisa ser a parte principal da nossa apresentação. Ainda há espaço para o café, para aquele show, para o jantar na casa dos amigos, para o bom e velho “e o que você faz da vida?”.

O currículo é somente um resumo de quem estamos nos tornando, por isso o atualizamos. A vida que vivemos é que carrega o potencial que temos de sermos pessoas queridas por outras, apesar do nosso currículo.

Eu não sou um currículo. Você também não é um currículo para mim.

Muito prazer!



Imagem: sxc.hu

carladias.com

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2 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Essa é a Carla, uma pessoa que eu não conheço, a não ser pelo que ela escreve. E, com seus escritos, sinto que ela está mais perto de mim do que muita gente que está do meu lado. :)
Beijos

Carla Dias disse...

Marisa... Estarei sempre por aqui... E por aí... Mas sempre por perto. Beijos!