segunda-feira, 3 de setembro de 2012

É O QUE BASTA >> André Ferrer

Preocupada. Quase dezessete horas e o marido ainda não aparecera com o Gouda e o Cheddar. Logo mais, à noite, teriam Queijos & Vinhos.
Longe dali, ele conferiu as horas enquanto uma vendedora repetia a lista das qualidades do televisor de LCD e a comparava (tão animada quanto na primeira vez) com o rol das qualidades do televisor de LED. Ambos os aparelhos de última geração, a despeito das diferenças tecnológicas, podiam ser instalados na parede.
— Legal! Deixa espaço livre para os meus livros na estante.
A vendedora quis morrer. Os dedos enfiados nas covas dos olhos. Movimento, de fato, revelador. Gesto que, segundo lhe ocorrera, deixava claro aquele padrão feminino em relação aos amigos do trabalho, às roupas, à decoração, enfim, às coisas da vida a dois.
Então, ele se lembrou de que um insípido rack, há tempos, reinava absoluto no lugar da velha estante de mogno.
Durante a semana eu decido. Muito obrigado.
Enquanto deixava a loja, voltou a pensar na esposa e, por esta razão, estava arrependido. Afinal, a decisão tinha sido plena. Discutida e aprovada a dois. Democraticamente.
A mulher era esclarecida. Nível universitário. Tanto quanto ele, ela adorava os livros. Tinha bom gosto. Na verdade, se optaram por uma decoração clean e, agora, tinham uma dispensa cheia de quinquilharias, fora em comum acordo.
— É necessário ser justo com ela.
Em casa, a mulher cruzou a sala. Teriam Queijos & Vinhos naquela noite. Havia, pelo menos, dois argentinos e três nacionais, de safras recentes, na adega, e um bom sortimento de iguarias importadas de vários cantos do mundo, Pecorino, Emmental, Roquefort, Camembert, Provolone, Gorgonzola, mas o gerente regional e a namorada gostavam mesmo de Gouda e Cheddar. O marido, bastante atrasado, causava-lhe ansiedade.
Então, ela chegou à escada. Escalou dois degraus para ter uma visão especial da sala. Repentinamente atormentada, encarou a falta que o marido fazia e também a falta que ela própria fazia naquele ambiente.
Networking — disse. Os dedos metidos nas covas dos olhos. Queria tirá-los dali num só golpe. Assim, não veria a própria despersonalização.
— Vergonha! — prosseguiu. Tudo aquilo valia a pena? Por causa dos outros?! — A minha casa mais parece um hospital!
Rapidamente, atravessou a casa e se instalou diante de uma porta. A porta do quarto das quinquilharias. Mal podia esperar. Assim que pudesse, colocaria a história deles no devido lugar. A televisão que planejavam ter deixaria espaço livre na estante. Sobre a madeira nobre, haveria lugar para os porta-retratos e os bibelôs que pertenceram à sua mãe. Teria, o marido, que aceitar.
Às dezessete horas e quinze minutos, ele atravessou o corredor lotado e entrou na loja que ficava no outro lado do shopping. Apanhou os queijos necessários, o Cheddar e o Gouda, e se aproximou da secção de bebidas.
Logo mais, pela primeira vez, receberiam o gerente regional e a namorada. Merece. A ocasião merece. Tinham bons vinhos na adega high tech recém-adquirida, mas aquele Banyuls Rouge 2008 valorizaria a noite.
— Para que?
Súbito, a lembrança do gerente regional e da namorada se transformou numa sensação conhecida. Sempre que viajava com o pai, na infância, era exatamente aquilo que sentia quando chegavam ao destino (invariavelmente, uma cidadezinha mineira ou goiana perdida no meio do cerrado).
Enquanto dirigia, ele pensou naquelas antigas aventuras e na provável reação da mulher. Quando conversassem, logo mais, ele descobriria o quanto aquela idiotice de networking realmente significava para ela.
— Basta. É aqui que eu “apeio”. É o meu destino. Antes que se perca a identidade, é necessário ter essa percepção.
Toque do celular: you must remember this, a kiss is just a kiss
— Amor?
— Alô, querido, você já comprou os queijos?
Cheddar e Gouda. Como você mandou. Não se preocupe, já estou no carro, a caminho de casa. Tudo bem?
Silêncio.
— Oi?! — ele disse ainda.
— Já está muito longe da loja?
— Acabei de sair. Por quê?
— Volte e traga catupiry e frescal. Lembra-se daquela cachaça? Presente do teu pai; que ele trouxe de Juiz de Fora? Então. Para hoje à noite, é o que basta.


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4 comentários:

Evaristo Calixto disse...

André, você conseguiu imprimir estranhamento a uma situação corriqueira, e ainda bolar um desfecho engraçado. Continue!

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Grande poeta! Obrigado pela apreciação. Aqui e ali nos encontramos. Sim: gostei da sua caricatura no perfil do Recanto das Letras!. Tenha um bom feriadão!

Zoraya disse...

Legal, André! Lendo sua crônica lembramos o quao confusos e distantes de nós mesmos somos. E ficou engraçado. Beijos

albir disse...

Verdade, André. Não podemos nos afastar de nós mesmos para nos aproximar dos outros.