sábado, 8 de setembro de 2012

A NOVA CASA DE ANA [Maria Rita Lemos]

Encontrei-me casualmente, semana passada, com minha amiga Ana. Eu já estava saudosa, há muito tempo não há via. Soube que ela estava se mudando para uma nova casa, num condomínio fechado, e essa situação demanda tempo e energia, por isso não estranhei a falta de notícias.

Nesse encontro casual, ela me comunicou seu novo endereço, e convidou-me para conhecer sua casa. De preferência, num final de semana em que pudéssemos esticar o papo até a noite. Senti, na voz de minha amiga, um toque diferente, meio choroso, e perguntei a razão. Perguntei a razão, e ela começou realmente a chorar, pegando o gancho de minha pergunta, como sempre acontece com os que estão à beira das lágrimas.

Ana soltou a dor que vinha curtindo secretamente, não queria que o marido percebesse que ela estava triste. Afinal, foram cinco anos de sacrifícios praticamente diários para terminar a casa de seus sonhos! Agora, que finalmente estava pronta e decorada, a mudança já feita e tudo guardado nos lugares, Ana tinha na boca do estômago, dia e noite, essa sensação chata de perda. Por que? Ela se perguntava.

Recordou que, desde o começo desses longos cinco anos, tudo foi planejado com carinho, cada detalhe foi minuciosamente premeditado. Tudo tinha um sentido quando idealizaram a planta: a localização do quarto dos meninos, das gêmeas, o escritório do marido advogado, a sala de música com o piano, abrindo-se para o jardim de inverno, a piscina e a churrasqueira esperando amigos(as) queridos(as) nos finais de semana... No entanto, agora, que já estava ali, tudo parecia tão vazio e sem sentido, exatamente como ela, Ana, sentia-se agora. Perdera o referencial, a identidade. A casa antiga, embora bem localizada, era pequena para o casal e os quatro filhos, de idades tão diversas. Quando a compraram, tinham apenas os dois mais velhos, que ainda eram crianças. Eles foram crescendo, vieram as gêmeas, também crescendo, e os filhos adolescentes trouxeram amigos e namoradas, e as namoradas dos amigos e amigos das namoradas... enfim, com muito sacrifício, compraram um terreno em condomínio fechado, e por cinco longos anos as crianças só ganharam presentes, ainda que singelos, nos aniversários e Natais. Tudo ficou difícil, e quando reclamavam a resposta era sempre a mesma: “estamos construindo, depois vocês vão sentir como será gostoso morar na casa nova”...

Agora estão todos na nova casa, mas ninguém parece muito feliz. Sobretudo minha amiga. Conversamos um pouco, tempo suficiente para eu entender que minha amiga estava passando por uma crise depressiva situacional, de adaptação a mudanças, e convencê-la a voltar para sua psicoterapia, com uma colega profissional.

Despedimo-nos, e fui embora pensando que, assim como as pessoas, as casas também têm uma identidade e uma história. A casa antiga estava pequena, mas cada cômodo tinha um pedaço de vida. A sala ainda guardava, grudado no piso sob o tapete, um pedaço de cartilha que o filho mais velho colara, uma vez, quando estava sendo alfabetizado, e nunca mais ninguém conseguiu arrancar. O portão de ferro, em frente à garagem, estava riscado por um tombo do segundo filho aos oito anos, quando caiu da bicicleta e quebrou o dente... Entre o quintal e o corredor lateral, o portão de madeira ainda estava intacto, feito há anos atrás para impedir que Nero, o cão pastor, invadisse as áreas sociais e o jardim da casa. Nero morreu atropelado, mas o portão lá ficou, sem efeito, mal feito. Até esse portão causava saudade em Ana, nessa casa linda e fria que não conseguira, ainda, mexer com seu coração. A sala de TV, antes tão pequena, guardava nas paredes doces lembranças dela com os meninos pequenos, nos começos de noite longínquas, vendo desenhos animados. Tudo era tão intenso, tão cheio de vida, como intensas são as histórias de nossas vidas.

Compreendo o vazio de Ana. Ela me prometeu que vai retomar a terapia, e com certeza descobrirá aos poucos a nova história que essa casa irá também escrever devagar, nos cômodos, nas paredes, em cada pedaço de chão. Porque assim como a história de Ana terá continuidade, em sua vida, de suas filhas e filhos, a casa em que mora fará parte desse novo capítulo. Sua casa ganhará identidade. Talvez com um novo cão destruindo outro jardim, ou com a neta que já anunciou sua chegada, filha do filho mais velho que, por sua vez, também já habita outra casa, já formou outra família, tem agora um novo lar.

Casas crescem, ficam pequenas, são substituídas, mas nossa vida continua a vibrar, dentro de cada uma delas. Até a última, que temos a certeza que nos espera, não sabemos para quando será a mudança. Que será a melhor casa de todas, disso estou certa. Até lá, vamos povoando de vida nossas casas terrenas, simples e humildes, nas periferias da cidade ou nos condomínios de luxo, mas a história se repete sempre: somos nós que fazemos a identidade delas. Com nossos amores, nossas alegrias e tristezas. Com pedaços de nossas vidas...

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3 comentários:

Michael disse...

Muito bom =P

Carla Dias disse...

Maria Rita, bela crônica sobre a mudança. Acredito que essa sensação de ausência de história, de intimidade com o espaço, como se tinha com o antigo, faz parte do processo de aceitação da felicidade vigente. Que a casa de Ana seja preenchida com histórias lindas.

sandra disse...

Maria Rita,

belo texto descrevendo o processo interno de mudanca, emoldurando sentimentos que nao foram para a casa nova. Parece que 'e assim mesmo..quando a mudanca ocorre em nome do vai ser melhor etc..
Daqui a pouquinho a Ana ja vai descobrir-se na nova casa e vai construir a casa interna dela dentro dessa moradia mais espacosa.