segunda-feira, 17 de setembro de 2012

ACONTECE >> André Ferrer

Há tempos, um fragmento de texto ocorreu-me. Chamei-o, logo, de O baile fantasma. Procurei um vídeo de uma canção antiga no YouTube (Guitar Man do Bread foi a escolhida). Insatisfeito, não só publiquei no Facebook como também no Google Plus.
Neste sábado, a estranha sensação que me fez escrever, ilustrar e publicar O baile fantasma de uma forma tão impulsiva reapareceu. Ela sempre volta. Acontece, a miúde, em diversos locais e ocasiões.
Dessa vez eram as notícias da crise portuguesa e, num dos artigos que eu lia, encontrei uma foto clássica dos anos de 1970, emblema da Revolução finalizadora do salazarismo. A garotinha diante de um fuzil. Os braços erguidos. Um cravo que acabava de entrar no cano da arma pelas mãos da pequena.
Ocorreu-me, assim, a certeza de que da imagem da flor, há muito batida, já era difícil extrair poesia no século passado. Nos dias que avançam, pior ainda! Um poeta não deve buscar a sua arte nas coisas triviais, ainda que belas, e sim no deslocamento dessas coisas. Não existe mais arte na flor do que no estranhamento da flor.
A nostalgia de um fato não presenciado, mas que marcou a minha juventude reacendeu naquele instante. Procurei O Baile fantasma e, em cerca de três horas, desenvolvi-o. Sem, no entanto, chegar àquilo que acreditava ser a expressão verdadeira do sentimento.
Na ocasião anterior, bem que eu tentara definir. Chamei de saudade. Não era. E também de nostalgia. Não era. Então, a palavra sehnsucht apareceu numa postagem no Facebook e, instintivamente, percebi que havia encontrado o cano de fuzil perfeito aonde depositar o meu cravo.
Na Língua Alemã, trata-se da palavra que mais se aproxima da nossa saudade. Sehnsucht, entretanto, expressa um tipo inespecífico de saudade, ou melhor, um tipo de saudade cujo objeto é inespecífico. Por exemplo: ele pode ser uma época ou evento não presenciado. Ele pode ser alguém que sequer conhecemos. Ele pode servir, diante do enfraquecimento das flores, como arremate de um conto inacabado.


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2 comentários:

Evaristo Calixto disse...

Uma crônica metalinguística para implodir a segunda-feira. Muito bom! "Sehnsucht", dos alemães, faz muito sentido. Precisamos perder o foco, de quando em quando, para que novas ideias nos ocorram. Ainda que o cérebro garanta-a, a mente é muito maior do que ele, e anterior ;-) Há alguns dias, li em algum lugar que, para efeito poético, uma chuva que cai do céu e molha o chão não tem valor. Por outro lado, uma chuva que irrompa do bolso do colete, ou do teto da varanda, contém transvaloração e, por isso, diz mais à vida de hoje. Certamente, um cravo político no cano de uma espingarda é mais expressivo do que uma rosa em seu caule fincado na terra, balouçando ao vento. Em termos de literatura, bem entendido, e não em sentido absoluto. Por isso, não acharia mau deixar um pouquinho a transvaloração para que alguma água caia deste céu de inverno calorento rsrsrsrs Abraço, André, e continue!

albir disse...

Eu também, André, "ainda guardo renitente um velho cravo para mim".