Pular para o conteúdo principal

GENTE BOA NÃO ENTRA >> Carla Dias >>

Há alguns anos, eu escrevi um conto com mais diálogo do que jamais escrevera. Incluí este conto em um dos meus livros carinhosamente engavetados. E lá ele ficou: quietinho.

Um tempo depois eu o reli, numa das garimpadas que faço nos meus escritos, vez ou outra. Na época, a minha paixão pelo cinema andava pra lá de lancinante. Na verdade, eu andava lendo roteiros, porque queria aprender como chegar à tela com um texto. E então, este conto reapareceu, repleto de diálogos, timing certo para se tornar o que eu almejava: estudo sobre como conceber um roteiro.

Selecionei o tal e comecei a trabalhar nele. Das quinze páginas para mais de uma centena delas foi fácil. Aí vocês já podem ver que não consegui aprender a escrever roteiro, que estava mais para novela. Só que fui marcando como roteiro mesmo, estudando, fuçando, transformando, mas sem mexer no tema, que era o que realmente me encantava nele.

Essa viagem dura até hoje. O “Gente Boa Não Entra” ainda é material de trabalho para mim, e o conto nasceu em 2000! Eu que não sou de modificar demais os textos que escrevo, peguei este pra Cristo... E venho me esbaldando nessa vontade minha, leiga que só, de conceber um roteiro pra cinema. Mas é certo: o tema continua o mesmo.

A história gira em torno de três personagens: Bete, a figura de personalidade forte e ironia afiada que acumulou um punhado de ex... Gente boa que não entra em ambiente chique, mesmo sendo uma ex-moça rica. Jean, o moço rico que vive em função da tradição familiar, desatento ao que acontece no mundo afora, onde as pessoas experimentam e às vezes o gosto é amargo... Gente boa que não compreende que a vida é mais do que a confecção da grife de roupas esportivas que gere e nunca usa. E Marco, que prefere se transformar no poeta bêbado Henry, do filme baseado na vida de Charles Bukowski, o Barfly, a viver a própria vida, mas não tem dinheiro para a bebida, então se embriaga de água e faz de conta que está trançando as pernas... Gente boa que não sabe onde cabe sua própria voz, então busca a de outros.

Há algo em comum não somente entre eles, mas acredito que entre muitos de nós. Em algum momento da vida, alguém lhes disse: “Você é muito gente boa, mas não dá...”. Trocando em graúdos: gente boa não entra.

Assim como eles, tenho também minha coleção de portas na cara. Profissionais ou pessoais, todos lidamos com elas rotineiramente, pois fazem parte da vida. Porém, as que são oferecidas com esse agrado ofensivo que estabelece uma cortesia falseada ao tentar fazer acreditar que o outro é tão bom que é impossível compartilhar um trabalho ou uma história de vida com ele... Prefiro as ofensas.

Um dos diálogos de Bete expõe como ela lida com isso: “Eu me acostumei a ser boa companhia no mundo imaginário das pessoas, como se eu fosse um tipo de personagem de quadrinhos, sabe? E não tive coragem de mudar quem sou só para ter passe livre na vida dos outros. Sem contar que acho muito interessante, de uma maneira cruel até, aqueles que praticamente declaram que, no universo deles, gente boa não entra. Eu me habituei a isso, também... A ser essa gente boa sendo barrada.”

Minha crônica de hoje é apenas um resgate de uma reflexão que vem lá de não sei quando: perdemos muito tempo envolvidos com o desconforto que as diferenças podem causar, deixando de apreciá-las. Assistimos a reality shows, lemos revistas de fofocas, entre outras ferramentas para espiar o universo do outro; e nos deleitamos com os erros e os acertos deles, assim como invejamos a capacidade que têm de não temer o ridículo.

A maioria de nós reluta em trazer para as nossas vidas essas diferenças... Essas pessoas e suas diferenças. A maioria de nós quer uma ordem que, na realidade, não existe. Então, inventamos e depois reinventamos padrões de comportamento e passarelas, nas quais desfilamos toda imponência das certezas que temos, dos castelos que construímos, da vida protegida de vida que adquirimos. E damos fôlego à intolerância e ao preconceito, certos de que somos os melhores seres humanos que podemos ser.

A aceitação é um exercício diário, um fazer e refazer a curiosidade sobre a outra pessoa. E é uma das viagens mais gratificantes e, claro, para a qual também podemos ser convidados.

Afinal, gente boa não só entra, como também colabora com as mudanças pessoais de quem abre a porta. Então, que sejam mudanças para melhor. Que sejam várias portas sendo abertas... A diversidade sendo recebida.


Imagem: "Hide", de Jarek Puszko

www.carladias.com

Comentários

Oi, Carla!

Não dá pra começar sem dizer que fiquei curiosíssimo pra ler o conto/roteiro. :)

A reflexão sobre gente boa demais para entrar é interessantíssima. Acho que todos nós temos nossas próprias experiências disso. Talvez lembremos mais daquelas em que fomos barrados, mas com certeza também houve aquelas vezes em que barramos pessoas boas demais. Por isso que acho que está faltando alguma coisa nessa sua reflexão... Não consegui identificar exatamente o que, mas falta alguma coisa que clareia o assunto. :) Vou ficar pensando e ver se me vem a lampadinha no pensamento.

Até lá, beijo que vem do prazer de ser seu leitor. :)
Carla Dias disse…
Eduardo : )
Acho que você sentiu falta de eu deixar bem mais claro que essa GENTE BOA não é somente o outro, mas nós também, algo que fiz somente no final da crônica.

Mas foi proposital não me aprofundar nessa questão, pois acho que o primeiro passo para se entrar nessa de abrir portas é justamente se ligar que às vezes não a abrimos porque as mesmas nos foram fechadas na cara. Uma catarse é sempre bem-vinda.

Estou mexendo no roteiro... rs. Posso te mandar a versão recente quando terminá-la. Mas saiba que você leu o conto, assim que eu o escrevi... Há muito tempo. Talvez ao passar os olhos pelo roteiro você se lembre.

Beijos!
Anônimo disse…
AH!! quem sabe verei este roteiro na sala escura de um cinema!! Quantas vezes, eu mesmo, bati a porta na minha cara!! Tomara que consiga ser mais gentil comigo!! umbejãodojão
Marisa Nascimento disse…
Carla, que idéia interessante! Até que um conto em si é normal, mas esse que, por acaso ou não, vai sendo lapidado com o passar do tempo, é formidável!
Fico aqui pensando que mesmo sem lembramos das portas que fechamos para os outros, sofremos egoisticamente quando estas nos são fechadas. Me veio à mente um labirinto com várias pessoas e muitas portas...
Jander disse…
eu não entro em blogs sem ser convidado.
bonita reflexão sobre seu filhote, Carlota. como sempre, tua sensibilidade vem antes da mera vontade de escrever bonito. por isso gosto das tuas crias. e tenho dito.
Anônimo disse…
Carla querida, amei o roteiro da crônica ou a crônica do roteiro. :))
Gostei imenso do Marco, talvez porque ele faz malabarismos -- literalmente -- tentando ser ele mesmo, mesmo que seja pegando emprestado o script de outro...
Eapero ver esse roteiro no cinema. Já reserva minha cadeira na pré-estréia! :)
beijo grande!
Claudia, a Letti
Anônimo disse…
Estava pensando em algumas coisas e encontrei esse texto quando procurei no Google "gente boa, mas". O que vem depois da vírgula junto com o mas está sempre bagunçando a vida do gente boa...

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …