sábado, 12 de abril de 2008

PENSAMENTOS [Debora Bottcher]


Ele se senta para escrever, esvaziar a alma, soltar as amarras e as amarguras... Pensa em muitas coisas... A Morte... Senhora absoluta que passeia em sua vida, rondando, todo tempo à espreita... A Vida... Estrada muitas vezes sem sentido, caminho sem direção, atalhos que não levam a nenhum lugar...

Acha complicado viver... Sente seu peito carregado de dor, meio que suspenso no passado, envolto em névoas, no submundo do destino...

Pensa num poço... Alguém lhe disse que os poços são encantados e que suas águas, lá no fundo, são azuis - embora pareçam negras... É a magia da luz - explicaram.

Vasculha os jardins... Sempre gostou deles. Houve um tempo em que pensou em ser jardineiro, cultivador da terra. As flores são a expressão mais pura da delicadeza. Lembra de uma rosa cor de pêssego... Ama as matas: verdes, densas, escuras, revelam segredos, guardam a sensualidade, escondem mistérios...

Ele gosta das tempestades - ventos enfurecidos arrastando a calma. Pensa nas despedidas: alguém que ama está prestes a partir e ele ainda não aprendeu a conviver com as perdas. Ela arruma as malas, faz planos, sorri feliz da novidade que a espera... E sua melancolia aumenta... Ele tenta segurar o tempo, parar o ritmo das horas, conter os minutos... Inútil: essa sucessão de momentos não pode, nunca, ser estancada.

Agora pensa em escrever sobre o Amor, mas nada lhe vem à mente, exceto a sensação de que seu amor se perde numa viagem qualquer pelo universo, em busca de horizontes nos quais ele não faz parte do cenário.

Ele é um homem bonito e a alegria já lhe povoou os dias. Mas agora está apaixonado por uma mulher que é metade Bruxa e metade Fada; metade Vida e metade Morte; metade Sedução e metade Pureza; metade Humana metade Anjo. Uma mulher que se divide em muitas e cavalga o mundo sem criar vínculos, sem fixar espaços, nem alimentar esperanças. Avisa logo que chega que está de partida para que não se crie ilusões a respeito dela.

Contudo, o coração é um caçador sem limites e pensa que pode quebrar todas as barreiras quando envolvido por sentimentos nobres. Entende que a grandeza da verdade do amor pode superar a dor e continuar acalentando o sonho, muito embora ele se mostre desprovido de se tornar real. Ele se deixou levar: aquela mulher sem intenção o seduziu, o fez cativo dela, o tomou inteiro para si sem desejar.

Gostou da descoberta e apesar de, agora, sentir-se imerso num buraco de lama - e, em breve, de solidão -, ainda acredita que essa foi a maior descoberta que fez para si mesmo: um diamante raro, polido, feito cristal. Que importava que partisse se ficaria guardada consigo até o fim de seus dias? Porque se preocupava com o fato de que nunca mais lhe visse os olhos se poderia contemplá-los em todos os mares? Que diferença se os ventos levassem para longe seus cabelos dourados se em qualquer plantação de trigo estariam presentes?

Seu desespero começava a amenizar-se: sua voz interior lhe contava que aquela mulher era sua prisioneira sem o saber. Ela podia pensar que partia, mas enganava-se - porque ficava. Estava cravada em sua pele, em suas entranhas e era sua mesmo que se perdesse nas distâncias.

Ele sorriu... E surpreendeu-se ao sentir-se mais leve. Os pensamentos são nuvens mágicas de conclusões dispersas...

Expressões Letradas
Imagens: On the Verge, Ben Roberts; Saudade, Radyr Gonçalves

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3 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Ah, Debora!
Como é bom te ler!
O que você escreve dispensa comentários, literalmente. A nós, leitores, fica a vontade de guardar para sempre o que absorvemos, porque você consegue massagear corações e almas, sejam eles alegres ou feridos.
Beijo grande.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ai, ai, Debora (agora é a minha vez)... posso fazer de conta que essa linda crônica foi escrita pra mim? :)

albir disse...

Ai, ai, ai, Debora...
Suave como o vento e profundo como o poço. Se não se pode mudar os fatos, sempre se poderá mudar a postura diante deles. E, afinal, perde-se aquilo que não se apreende e não aquilo que vai.
Parabéns!