quinta-feira, 10 de abril de 2008

Pai e filho conversam sobre a morte >> Leonardo Marona

- Quando você morrer eu morro.
- Não.
- Sim, uma parte de mim.
- Não, nunca seremos tão íntimos quanto quando isso acontecer.
- Íntimos? Você num caixão... Íntimos?
- Sim, pense bem: de perto todo mundo é mais ou menos, de longe todo mundo é legal, morto todo mundo é do cacete. E de muito perto todo mundo é insuportável.

...

- Por que você não lavou a louça?
- Porque ainda estou comendo.
- Você poderia comer o dia inteiro.
- E você morreria por isso?
- Um dia, talvez, provavelmente.

...

- Você falando, parece que quer que eu morra.
- Você não. Mas eu já quis que duas pessoas morressem.
- Quem?
- Um sujeito que me roubou e outro que era pelego de uma greve que eu fiz.
- Mas você queria que eles morressem?
- Queria. Mas não podia matar nenhum deles. Então tive que esperar. Outro dia me ligaram: um de câncer no estômago, outro morto pela empregada doméstica, a facadas.

...

- Mais gente de bem mata ou mais gente de mal mata?
- Não existe gente assim.
- Como não?
- Todo mundo é meio mau. Alguns conseguem ser bons, sempre que têm um motivo. São os que chamamos de canalhas. Outros são ativistas, ou seja, malucos que lutam pela humanidade.
- Você é a favor das armas, então...
- Não exatamente. Tem um motivo pra você ser contra as armas: os crimes babacas. Sem armas, os crimes babacas diminuem. Esse seria um motivo. O único motivo na verdade.

...

- Mas você é contra...
- Do mesmo jeito que sou contra os babacas. Não acho a morte um absurdo.
- Eu acho. Morreria se você morresse.
- Mentira. Isso é desculpa pra não ter que viver.
- Morreria. Uma parte simbólica pelo menos.
- Você ficaria triste durante um tempo, sua vida mudaria, provavelmente pra melhor.
- Eu morreria.
- Então você morreria. E seríamos mais dois. Eu penso como os índios em relação à morte.
- Como eles pensam?
- A morte é tão importante quanto a vida. Talvez mais importante, porque é um elo eterno.
- Eu também acho isso. Por isso que, se você morresse, eu me mataria.
- Porque você acha a morte mais importante do que a vida.

...

- Eu te amo. É tudo.
- Eu também. E isso não é tudo.

E o guri então foi lavar a louça, disfarçando com o mindinho a lágrima da morte, que ria no canto da pia.


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3 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, interessante você trazer esta reflexão sobre morte num momento em que a mídia traz notícias sobre algumas fatalidades.
A morte, claro que na sua forma natural, seria muito mais fácil, se vista como a outra face da vida.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Nessa eu sou suspeito, pois você juntou três assuntos caros pra mim: pai/filho, diálogo e morte. :) Especialmente bonito o finalzinho.

Debora Bottcher disse...

Bem denso mesmo esse diálogo. E tal como para o Eduardo, essa combinação de pai/filho/conversa/morte me paralisa um pouco o pensamento e deixa tudo meio confuso.
O que sei é que quando um pai morre a gente não morre de fato, mas uma parte de nós se perde numa angústia crescente. E a lágrima da morte nos acompanha incansável, sempre à espreita...
Bonito texto/diálogo.
Beijo.