sexta-feira, 4 de abril de 2008

IRLANDA >> Leonardo Marona

Permita o céu que o leitor afoito e momentaneamente feroz com isto que está lendo encontre, sem se desorientar, seu caminho abrupto e selvagem, através dos pântanos desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno; pois, a não ser que mantenha em sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos igual à sustentada aqui, as emanações mortais deste livro lhe embeberão a alma como a água ao açúcar. (“Os Cantos de Maldoror” - primeiro parágrafo - de Isidore Ducasse, O Conde de Lautréamont).

E ainda assim falaremos. Não resta dúvida. Diremos o que mais já não tivermos. E será o suficiente por enquanto. No mais lavaremos o chão de olhos arregalados. Esperaremos as sirenes distantes, plantaremos expectativas em terrenos assombrados, onde o silêncio é uma estaca. E qualquer um nos perguntará: “Nós quem, cara pálida?”

Nós ausentes de atenção. Nós dentaduras. Nós bigornas penduradas no pescoço. Além do mais, não sabemos afinal o que perguntar. Isso no fundo explicaria muito. Revelar a real ocupação das palavras, essas amantes públicas. Vocês já leram Wittgenstein? As coisas aquelas, das palavras serem importantes? Começo mal aqui. Aliás, existe algo de bom que possa começar bem?

Meu pensamento feito crônica seria algo sobre a genealogia dos começos impactantes. “Hoje, mamãe morreu”. “Sou um homem doente”. “Naquele tempo, com a barriga na miséria, eu vagava pelas ruas de Cristiânia, cidade singular, que deixa marca nas pessoas...”. “Aconteceu naquele louco verão em que Frankie tinha doze anos”. “Fui criado sozinho e, até onde me lembro, vivia angustiado pelas coisas do sexo”. “Logo enfim vou estar bem morto apesar de tudo”. Porque, se não podemos estar certos sobre o fim, é preciso dizer que existem, sim, os bons começos. Russos, franceses, americanos, noruegueses, sem-pátria.

Mas isto é apenas uma crônica, um esperar pelos piscares singelos. E afinal não sou austro-húngaro, mas sinto falta. E afinal nem li tão bem Campos de Carvalho ou Gogol, e não sei de tantas loucuras ou aliterações. Graciliano a mim parece um tipo que te suga no escuro. Caio Fernando, um que te questiona sem te perguntar, com a mão na tua braguilha. Hemingway eu imagino carregado sempre, por assassinos. Henry Charles B. Jr., uma ligação por engano para alguém que se conhece há muito tempo.

E no fundo tudo está em Walter Franco, mas não se pode. As segundas opções reverberam. Os retardatários se aproximam para apunhalar os jurados. E o que temos realmente? Pouco frio ou casa alguma. Onde exatamente se localiza o que chamamos de asma, de Kaspar Hauser, de Ter e Não Ter, de Montanha Mágica, de Subterrâneos, os melhores começos da história fictícia de toda a nossa excêntrica experiência humana?

Por que a morte de Tchekhov por inalação errônea? Querer algo que não seja algo além de tudo que todos os cárceres privados, uma vez antes apaziguados, caucasianos nômades nordestinos, os melhores, os que souberam morrer sem dizer adeus, porque eu não sei...

Além do que deveria ser uma crônica respeitosa, digna de comentário abençoado pela dádiva do Senhor Deus Aracnídeo. E já que não sou Rubem Braga nem me disfarcei com uma guerra, dou de punho a palavra aos meus amigos próprios: “Um bêbado que não vale nada”. Mas quem reconheceria, afinal, mais um sorriso honesto?

Para provar que é apenas uma crônica, e que uma crônica nada mais é que um resumo do tempo desperdiçado, transcrevo aos sobreviventes um papel escondido no bolso de ontem:

onde estará agora, que chove,
essa vontade inapta de morrer,
de trucidar-me vivo ao pálido,
que tanto compele a humanidade,
e ao mesmo tempo esse ímpeto
que devora o dom do perdão?

agora onde estará a insígnia
calcada em cada desatenção
sob a pele da ausência viva,
pura e simples, sem perdão?


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Um comentário:

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, você consegue falar de morte, da vida, das angústias e de mestres da Literatura sem perder a essência e a sua qualidade textual.