terça-feira, 1 de abril de 2008

HERÓIS >> Albir José Inácio da Silva

Tive muitos heróis desde que me lembro de mim. Antes mesmo de conhecer a palavra herói, já havia pessoas de quem eu reverenciava até o som da voz ou dos passos. Depois vieram os super-heróis em quadrinhos e lembro até de um radiofônico chamado Jerônimo – o herói do sertão.

Tenho me deslocado pela vida ao lado dos meus heróis em naves espaciais, cavalos baios e navios de guerra. Já freqüentei pódios com Senna, estádios com Pelé e palcos com John Lennon. Cruzei latinamérica com Che Guevara e participei, sob o olhar raivoso do segundo exército, de comícios no ABC.

Meu pai foi para mim uma espécie de figura mitológica que misturava anjo com herói. Depois descobri que gostava mais do homem que do mito. Mas ele foi sempre herói, mesmo sem os superpoderes.

Foram bons os meus heróis. Se não fiquei melhor não foi por culpa deles, mas da minha dificuldade em apreender-lhes a essência.

Embora o significado de heroísmo para mim tenha mudado ao longo dos anos, os heróis continuam presentes. Agora entendo que não nos é dado escolhê-los – eles se impõem. E influenciam a vida da gente de maneira inexorável. A de Maico também.

Maico é um garoto que acha que tem catorze anos, vive numa comunidade pobre da Baixada e também tem seus heróis. O maior deles: Fernandinho Beira-mar. Há outros, menores, que andam armados pela favela e não levam desaforo pra casa. Todos são violentos, porque para Maico herói é forte e forte é violento. Andam de carro ou de moto, freqüentam os lugares que querem, “arrastam” as garotas que escolhem. Ninguém, entretanto, se compara a Fernandinho. O aparato montado para o deslocamento de seu herói pelo país deixa o coração do menino aos pulos: “dá mole pra ver se ele não quebra geral”.

Maico nunca sai da quarta série, mas vai à escola de vez em quando para que sua mãe receba verbas assistenciais. Não acredita em escolas. Ninguém à sua volta acredita. Queria ser jogador de futebol ou cantor de funk, mas não joga bola nem canta nada. Anda cabisbaixo. Sabe que sua vida não vale muito pra ninguém. Nem sua morte. Mas tem seus heróis.

Os heróis de Maico me incomodam. Os meus lhe são indiferentes ou desconhecidos. Queria falar a ele sobre nossos heróis. Talvez pudesse afirmar, categórico, que seus heróis não são heróis. Um absurdo de lógica porque se são os heróis dele como podem não ser heróis. Talvez dissesse a ele que seus heróis não são bons como os meus. Outra grande bobagem porque se ele os escolheu heróis é porque são ótimos. Poderia dizer que sua avaliação está equivocada, mas não saberia explicar por que a minha avaliação é melhor que a dele.

Que boas razões apresento para que Maico faça o que não acredita e acredite no que não conhece? Que argumentos poderiam resgatá-lo de seus heróis, de sua apatia e de sua rota de colisão?

Só me ocorrem uns versos do Gonzaguinha, lá do início da carreira:

“Pra ganhar um fuscão no juízo final
e um diploma de bem comportado.
Você merece. Você merece.”

Mas acho que Maico retrucaria: “Ninguém merece!”

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4 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Ai, Albir...
Coração ficou apertado aqui com uma sensação tão grande de impotência. Você sempre escreve tão bem e sobre um assunto tão delicado que poderia render páginas de discussão, terminou com música. Assim, também vou deixar o treho de uma do Cazuza que já sabia tudo:
"Meus heróis
Morreram de overdose
Ideologia!
Eu quero uma prá viver..."

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Já que é pra terminar em música...

"Você foi meu herói, meu bandido.
Hoje é mais, muito mais que um amigo.
Nem você nem ninguém 'tá sozinho.
Você faz parte desse caminho
que hoje eu sigo em paz."
(Fábio Jr.)

Paz pro Maico, pro Fernandinho, pra você, Albir, e pros seus heróis. :)

Muito bem escrita a crônica, vai envolvendo a gente da fantasia da infância até o desafio de ser adulto.

RaissaCards disse...

Lindo blog, linda crônica.(isso não é menira)
Passa lá no meu.
RaíssaCards

Anônimo disse...

Albir querido,
A sua (que também é nossa, de todo mundo) reflexão social parece ter sido escrita com o coração, né!? Faz a gente pensar nos Maico's e a falta de oportunidade da vida de apresentar-lhes outros heróis.

Gostei demais da sua conclusão de que os heróis se impõem. :)

beijo grande,
Claudia, a Letti