quarta-feira, 9 de abril de 2008

2040 >> Carla Dias >>

Depois dos trinta, contemplar o futuro distante passa a ser mais freqüente. Eu e minhas amigas batemos longos papos a respeito, tentando alcançar uma idéia de onde e como estaremos em 2040, por exemplo. Lá seremos senhoras, algumas beirando os setenta anos de idade; outras já bem mais além.

Cada uma de nós tem uma visão sobre as velhinhas que seremos, evitando com empenho (e ginástica, alimentação saudável etc, planos que nem sempre conseguimos seguir) a possibilidade de não estarmos auto-suficientes nessa época que chegará.

Pensar na velhice não é tão aquém da rotina daqueles que já passaram dos trinta. Muitos buscam cuidar com mais afinco da saúde, “pra ser um velhinho saudável”. Então, nossas mães questionam como será esse ‘o que virá’ já que ainda não temos casa própria, um emprego daqueles que mãe sonha para suas crias e, claro, filhos. Não sobrinhos, filhos dos amigos... Nossos próprios filhos... Quem nos cuide quando voltarmos à infância.

Mas o que mais desejamos, não só eu e minhas amigas, mas creio que a maioria de nós, é ter alguém como aquele casal de velhinhos com o qual todos já cruzamos na rua; que apesar do tempo e, certamente, das discordâncias, das brigas calientes, tudo o que um relacionamento duradouro pode acarretar, conseguiram manter o carinho e o respeito. Conseguiram um equilíbrio que não sufoca o amor, não viola a amizade, não agride a cumplicidade.

Não somos românticas vendadas, meu caros. Na verdade, nossas almas receptivas e olhos abertos nos convencem de que prós e contras fazem parte da história de qualquer pessoa. Ninguém é perfeito. E amém!

Uma canção de Ceumar e Mathilda Kóvak pede: “Dai-me a graça/De viajar de graça/Por essa esfera afora/De virar uma linda senhora”... É isso! Queremos nos tornar lindas senhoras, afáveis e um pouco loucas, pois a loucura é um ótimo ingrediente para as ousadias que, nascidas na maioridade dos desejos, podem nos levar às mais intensas experiências.

Ainda que em 2040.


"Oração do Anjo", canção interpretada por Ceumar - 2008.


Um filme argentino - co-produção espanhola, dirigido por Marcos Carnevale, que também é um dos roteiristas - trouxe à tona essa minha contemplação de 2040. Diferente da maioria das comédias românticas, 'Elsa & Fred - Um Amor de Paixão' (Elsa y Fred – 2005) conta com protagonistas pra lá dos setenta anos de idade. E se vocês pensam logo em um filme uniforme, catequizado pelo teor dos aposentados pela vida, esqueçam!

Nesta trama, há uma Elsa completamente embevecida pela possibilidade de viver extremos; uma mentirosa compulsiva, que se vê na personagem de Anita Ekberg em La Doce Vita, de Frederico Fellini. Fred é um recém-viúvo, apático, hipocondríaco. Quando Elza passa a figurar em sua biografia, ele renasce, melhor, nasce, pois passa a experimentar sentimentos que jamais experimentara com sua esposa ou com qualquer outra pessoa.

Nem mesmo o fato de estar muito doente sossega a Elsa, belamente vivida por China Zorrilla. É justamente a energia dessa mulher casada à disposição de Fred (Manuel Alexandre) em participar de quem ela é que torna este um filme íntegro, já que sabemos que, para estarmos na companhia do outro, é preciso um trabalho mútuo de compreensão e aceitação.


Elsa & Fred trata o amor e a velhice com o amparo do afeto e as nuanças do bom humor.

Aquele casal de velhinhos que eu e minhas amigas observamos com esperança de alcançar tal alquimia, bem, talvez eles sejam mais intensos do que seus tranqüilos semblantes demonstram. Talvez eles vivam, no auge de suas vidas, o primeiro amor verdadeiro. E, diferente do que pensamos, tenham se encontrado em um recente ontem, não há décadas.

Do poema “Os ombros suportam o mundo"
de Carlos Drummond de Andrade

Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

O que será que nos reserva esse tal de 2040?

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5 comentários:

Anônimo disse...

É, Carla...
Às vezes, o mundo torna-se pesado mesmo sem o peso dos anos. Que a velhice nos seja suave e, de preferência, com boas lembranças.

Marisa Nascimento disse...

Meu comentário saiu anônimo.
Falha do mouse e da operadora dele. Deve ser o peso dos anos...*pisc

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, eu tenho que ver esse filme...

O poema do Drummond é maravilhoso.

A Ceumar é linda!

E sua crônica é uma salada deliciosa. :)

Debora Bottcher disse...

Valha-me, Carla... Em 2040 estarei com 70 anos! Não faço a menor idéia de como será. Estarei viva? Se sim, o resto deve resolver-se por si... :)
Beijo.

Anônimo disse...

Oi, Carla... simplesmente maravilhosa sua matéria. Vou escarafunchar para encontrar esse filme aqui no interior. E, repetindo o comentarista anterior, a Ceumar é lindíssima, e o poema do Drummond tem tudo a ver. Quero ser, sim, essa doce, velha e meiga senhora. Sem plásticas, a não ser na alma, quando necessárias.
Beijos, sempre meu melhor.
Maria Rita