sábado, 19 de abril de 2008

Sonhos de um Monge >> Leonardo Marona

Este texto será mais bem absorvido se lido ao som do piano de Thelonious Monk – Ou de Deus.

1. Monk’s Dream:

Uma rodada de dados – “Willie ‘The Lion’ Smith é a cabeça do meu pau!” –, ele grita quebrando uma garrafa na cabeça de Joe “Gordo” Postanza, o dono da banca – então ele ergue as calças e se manda pela janela. Um tiro lhe trespassa o colarinho da camisa. Consegue ainda salvar o trompete. Cai em cima de uma montanha de lixo. O lixo se espalha pelo chão. Nosso homem agora deve mais de 50 mangos e por isso não pode morrer. Tosse. Sangra a palma da mão. Um mendigo se acorda, deitado no chão (parecia sonhar): “Meu irmão, por que não dá o fora?”. Nosso homem leva a mão ao chapéu de feltro de duas bandas largas. Impressionante como é fácil substituir as tradicionais palavras de contato. Agora ele grita para o mundo da rua dos esgotos abertos – com o mesmo primeiro movimento põe tudo a perder, toda convenção – na direção de uma sacada. Então essa mulher – aparição perfumada – grita de volta mais alto, com a voz muito esganiçada. Diz as coisas mais terríveis. Mais um homem se apaixona. Bate na porta. Esmurra. Tosse. Sangra a palma da mão. Tateia os bolsos. Num deles acha uma pétala de rosa. Abre as duas mãos e olha dentro de cada uma. Uma pétala de rosa numa, sangue coalhado noutra. Bate na porta. Olha de novo para as próprias mãos. São tão parecidos, pétala, sangue... Ninguém mais atende suplícios e ele se deita no corredor, onde acorda sem roupas, a pétala ao lado, e sem um rim, o rim ruim, suturado, com um bilhete escrito: “Seu rim segue amanhã pela manhã para a Costa do Marfim”.

2. Body & Soul:

Tudo começa com um homem entrando num prédio feito de tijolos. Passa por duas meninas e um sujeito. Uma das meninas esfrega a língua na orelha do sujeito. A outra fica ali parada, olhando sob disfarce, segurando o queixo. O homem passa por ela. Olham-se. Ele vira para trás depois que passa. Ela ainda está olhando, com o pescoço virado e um beiço mordiscando o outro. O homem tropeça numa quina e cai de peito no chão. O casal pára de se beijar e começa a rir. O homem se vira, já não sabe mais como rir. Dói seu maxilar. Abriu um corte no queixo. Sangra sem medida. Levanta-se, um joelho ralado sangra também. O casal ri e ri, constrangido, mas de cara cheia. A menina que sobra (menina perdida, bondosa, excluída, sem ovários) fecha os beiços (o homem lanhado bate os joelhos com as mãos, pingos de suor lhe escorrem pela face) e uma lágrima lhe escorre pelo pescoço. O homem reconhece nela uma bondade débil, constrangedora, e faz um sorriso insosso. O tempo diminui sua marcha, como quando acontece a paixão. Um sorriso e uma lágrima. E não estaria ali o resumo do sentido? O homem sobe para casa de elevador. Mora no sétimo andar. Sai e vê o elevador descer até o térreo. Ele olha por um tempo para o mostrador do elevador. Primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto... Ele espera. Um carro freia bruscamente na rua. De um basculante através do vão central do edifício, mesmo andar, uma gorda bate as cinzas no cinzeiro, veias cinzentas estateladas nas dobras das pernas, ela corta um pão francês em três fatias e conversa com um marido imaginário na pele de um corsário turco. Na vitrola, em eco, através dos corredores do edifício, escuta-se a bateria de Shadow Wilson como um coração inchado, recém morto. O homem vira a chave de casa e olha para trás. Três policiais aparecem com um mandato de prisão por porte de entorpecentes. O homem olha para o seu melhor amigo, sentado aplicado estendido no sofá do apartamento vizinho. É o maior pianista que já se viu. Seu vizinho. Na porta. A porta escancarada. Cheio de gênio e droga.

3. Bright Mississipi:

Um saloon, é óbvio, em Clarksdale, com porta vai-e-vem. Lá dentro toca uma jazz band. Banjo, realejo, gaita, guirlandas presas nos sapatos, piano, pa-go-de. “Não é fácil fazer os acordes parecerem certos”, resmunga o pianista, depois de um gole pelo gargalo, com a mão apoiada na cauda do piano. Homens falam alto, comem almôndegas com molho de tomate e entornam eggnogs. Apenas negros, menos o atendente, um negro mestiço misturado com italiano, chamado Lou Padovani. Lá fora os brancos já voltaram para suas teses e causas. É a chamada “hora dos animais noturnos”. Outros homens, no balcão, tomam cerveja de trigo e falam sobre a chegada da chuva e as plantações de algodão. Suspensórios soltos. Seria um ano bom. Um pouco de serragem cobre o lugar de modo que os negros ficam mais claros e tudo parece mais claro do que realmente é. O rapaz da gaita de repente tomba e cai de boca no chão, as pernas por cima das costas. Os homens todos se levantam e riem e batem palmas e os pés no chão. Um homem sobe numa das mesas. Lá fora tudo que céu azul é sul. Outro alucinado puxa uma faca, disfarçado pela sombra clara formada pela poeira humana. Dois homens gritam “Whá-da-hell!”. A banda pára de tocar. Não se sabe ainda de onde vem o sangue. Até que um negro de bigode ralo corre em direção à congestão da porta e outro, um pouco mais gordo, de cavanhaque, tomba com um rasgão debaixo da orelha, sorrindo com os olhos arregalados. Alguém enfia uma ficha na juke box: Boogie Chillen. Arrastam o homem morto dali. Dois ou três sinais-da-cruz. Um amém. Nenhuma igreja em volta. Os negros voltam a girar os olhos por trás das suas canecas, desconfiados, esperando pela chuva. Amanhã será a mesma coisa.

4. Five spots blues:

Não conheço ninguém. Essa é, realmente, uma decisão difícil de tomar sozinho. Aqui ao lado existe um cara gritando que “ano que vem tem que votar no Fulano, não tem coisa melhor”, enquanto eu e essa menina, que deve ser muito boa de cama, defendemos que o dever político deve ser voluntário, sem remuneração, sem salário, sem sigilo. Ela bebe mais rápido que eu. O prédio é oco por dentro e sólido por fora, como o resto do mundo. É difícil ouvir o coração bater quando... Ali estou eu. Essa menina se inflama, limpa coisas, faz pães para todos, se vê no direito, bate o garfo no prato, “camaradas, comida!”, fala com muito controle sobre coisas incontroláveis. Isso me encanta. Ela brinca com o erro do comprometimento caricato. Uma hora as cervejas todas estão quentes, a polícia chega de repente, mas eu estou preso ao parapeito. Um sujeito se aproxima de mim. Acha que sou o tipo que dá boas respostas. Pergunta: “O que você acha que tem do lado de lá?”. Respondo a ele: “Um monte de gente perguntando o que tem do lado de cá”. O sujeito chora debruçado ao parapeito. Andar muito alto. Os carros rodam lá embaixo, como pequenas Sylvias Plath. Ele me agarra pelo pescoço: “Minha prima se suicidou daqui!”. Fico mamando minha cerveja: “Por favor, se for fazer isso, espere eu sair”. “Você não gosta da altura?”. “Acho que bicho sem asa tem que ficar no chão”. Naquela noite vi uma estrela de cinco pontas pintada em laranja por uma menina chamada Mercedes Callaghan. A estrela apontava para o sul. A silhueta se formava sob uma palheta de cores. Sinto-me estúpido. Confundo a orla de Ipanema com a Lagoa de Marapendi e, até aí, está tudo bem. Vejo a linha da montanha muito distante e penso nas linhas da mulher que me amasse. Não posso suar porque tenho um curativo na testa, logo acima do olho esquerdo, que vai me deixar um quelóide quando sarar.

5. Bolivar Blues:

Este é um camarada que anda assobiando, com as chaves na mão, procurando mulheres pelas ruas. Não consigo imaginar outra coisa senão seis latas de cerveja dentro de um papel pardo, cigarros de filtro amarelo, cabelos penteados para trás, dentes azuis de vinho. Ele não se lembra onde deixou seu Plymouth 61, mas lembra que foi num areal, local proibido. Achou uma mulher para se casar e duas para se divertir, no caminho de trás para frente que fez três vezes até encontrar o buraco onde enfiar a chave. E isso não tem nenhuma ambivalência, fora a lua, as estrelas, o céu, o reflexo dela nos braços de outro através da parede de vidro, o vinho quente, quer dançar comigo? Não, diz o poste. Sim, diz a calçada.

6. Just a Gigolo:

Ou conta dinheiro ou bate na porta ou limpa a orelha com a unha comprida do dedo mindinho. Lembrava de coisas como o pêlo macio colado ao lombo de um cavalo de madeira num dia muito frio numa casa arquitetada em estilo bávaro em alguma cidade da Região das Hortênsias. Passava a mão nos pêlos do cavalo de madeira. Sua mãe sorria. Seu pai batia fotos. Acenava com seu casaco quadriculado de jeans. “O que teria acontecido nesse meio tempo”, pensa alto enquanto batem à porta. Mas antes que alguma coisa caia no chão ou ele responda, a porta se abre, ele recebe uma saraivada de chumbo. Ainda sobra tempo, sempre sobra algum. Ele ajeita o chapéu coco, mete as mãos nos bolsos à procura de algo, sem saber com os dentes sujos se ri ou se chora ou se apenas... Então serve um copo de stinger e outro de bicarbonato. Faz o sinal da cruz, o chapéu no chão.

7. Bye-Ya:

De repente alegre, de repente triste, de repente sozinho. Os passos não dizem mais do que tropeços e sorrisos conseqüentes. Ele segue atrás dela. Olha no fundo do seu Martini Bianco. Ela não está ali também. Isso o revolta. Que patético um homem negro, meio mulato, quase pálido, sem religião, de lábios quebradiços e cheios, procurando moedas no chão com as calças pelo meio das panturrilhas. Passa por uma barraca indiana onde um indiano limpa os olhos com um pano cor-de-passado (círculo de luz enfumaçado pela gordura indiana, bocas trêmulas soltando vapores de cansaço). O indiano cheira azedo, suor nas sobrancelhas, ele todo evapora junto. Nosso homem levanta as calças, que agora cobrem os sapatos. Bate a camisa amarrotada, metade para fora das calças, mau hálito entre os dedos, lanhadas de unha na base do queixo, nenhuma lágrima, desculpa, cara de susto ou respaldo etílico. Escolhe um frango tandoori, que na verdade é duro mesmo. Um mango chutney vem de uma compota inesperada, na mesma hora em que um cão vadio passa lhe abanando o rabo, com a língua de fora. O indiano olha, enxota o canino: “Da próxima vez vira lingüiça!”. O cliente joga um pedaço de tandoori nem tão duro para o cão. O cão pára, cheira, vai embora. O rádio continua tocando e o mundo inteiro espera.


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Um comentário:

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, é impressionante a riqueza literária que você fornece aos seus textos. Impecável!