quarta-feira, 16 de abril de 2008

REFLEXÕES >> Carla Dias >>

Ao nascermos, mil e tantas possibilidades se aproximam de nós; cortejam nosso futuro. Para uma e outra oferecemos um sorriso, ainda sendo descoberto sorriso, porque não sabemos o que ele é. Apenas o sentimos benevolente, reconfortante, assim como é dolente a sensação de não conseguirmos verbalizar desconfortos.

Vamos aprendendo brincadeiras, enquanto burilamos descobertas mais profundas. Dói o dente, ele cai. Mãe conta sobre a fada dos dentes. Medo! E se ela se apaixonar pelo Bicho-papão? Pai paquera a bola de futebol, diz que ela será para a infância do filho, mas quê? Ela já é lua nos sonhos dele e se o filho chutá-la, ela irá parar no céu e não mais voltará, porque vai se sentir em casa. O pai vai chorar até!

No meio da jornada, o coração aprende o sentido do som dos tambores antes mesmo de percussionistas terem aulas com os mestres. É um tamborilar natural... A taquicardia da pressa pelos apaixonamentos. Os olhares se abraçam, as mãos se atrapalham, a voz falha e diz tanto ao cometer o silêncio, que embriaga de frescor a alma da gente.

Há, então, a constante desse equilíbrio: esperas. Já mencionei, e mais de uma vez, que as esperas me fascinam. E durante a gestação delas, precedendo as chegadas, há um movimento terno e languido; um preparo para o que ou quem virá. Uma tranqüilidade levada.

Num certo momento, necessitamos com requintes de urgência. E esse tipo de necessidade tem lá suas desavenças com a realidade; leva-nos a confabular, intimamente, com os revezes da ilusão. Então, necessitamos de amparo, de que nos digam que tudo ficará bem; que nos descrevam a rota, apontem no mapa aonde chegaremos se... Essa é a fase da bipolaridade emocional, quando preparamos o terreno da nossa alma para anjos e demônios, camas juntinhas, para que eles tagarelem como fazíamos com nossas irmãs e irmãos, quando pequenos.

Ficamos mais próximos dos precipícios.

Há tempo para compreensões, como a de que amar nem sempre é fácil... Que facilidades são itens de loteria, e que quase sempre não são benéficas. Ainda assim, sentir que vale o risco de cultivar amor, ateando compreensão no que não estimamos em nós mesmos: o corpo, o jeito, a voz. A incapacidade de aceitarmos que o amor é o benquerer que transcende rótulos, ultrapassa obstáculos e sobrevive apenas se alicerçado em compreensões. O amor que constrói enxerga ao avesso... De dentro pra fora.

Durante a vida, aprendemos um tanto e o desaprendemos com freqüência. Nossas intenções são frágeis, submissas, parturientes constantes de piedades. Mas também reverberamos alegrias, nos fartamos de contentamento! E se, às vezes, cambaleamos, chegamos mesmo a tocar o fundo falso desse fim que não é fim, mas sim a necessidade urgente de recomeço, é porque só saboreamos nossa existência ao regalo das experiências.

Quando estáticos somos um nada sem intenção de preenchimento. Somos vazios que só.


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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, você conseguiu fazer a biografia da vida de todo mundo. E com lindos arranjos de palavras. :)

Marisa Nascimento disse...

Carla, que belo texto!
Nossa existência é mesmo uma escola de aprender, desaprender e reaprender a viver e conviver (com o meu perdão pelas rimas pobres).

Carla Dias disse...

Ah, foi bom escrever este texto. Estava num dia daqueles em que precisava (re)colher as origens. E percebi que todas elas eram extremamente belas nas suas intenções... Intensamente importantes frente às minhas decisões.
A vida... Ah... Há.