terça-feira, 29 de abril de 2008

>> QUASARES >> Carla Dias

Eu me assombro não só comigo mesma ao retaliar mágoas e tentar calar avarias. Assombro-me com as refutações escaldantes que se propagam nesse eternamente de rótulos e sustos.

Sinto muito, meu caro, mas em mim moram vírgulas deslocadas, assimetrias inconvenientes; a minha voz cala e consente, mas nem sempre onde você deseja. É sempre num pouco antes... Num depois de agora.

Não visto as máscaras da sua preferência, mas se permitir posso me fantasiar de quem sou e, de repente, quem sou lhe bastará justamente pelas temidas diferenças que você evita reconhecer.

Talvez eu seja quase o que você espera, e no quase os quasares se distraem, e nos atazanam pela distância que nos separa, apesar de colidirmos freqüentemente.

Eu me descabelo mesmo, meu caro, se me vejo na vitrine das mesmices. Se em você busco conforto, quiçá um naco de confronto que dê em fazer as pazes, saiba também que me intriga constatar que você não me sabe com profundidade como o sei.

Prestar atenção dói? Desvendar é proibido? Então, tenho vivido às malhas da dolência e aos refugos das proibições. Transgressora às avessas, catando cacos de carinho, verbalizando silêncios em poesia. Envidraçando desejos, como colecionador de figurinhas a serem coladas em álbuns que sei lá.

Tenho uma lista de querenças:

Eu quero um mundo que caiba na barriga de grávida da vida, a amante da fertilidade de idéias. Quero um mundo como o pensava com menos anos de idade, quando mesmo à espera de uma centelha de realização que fosse, eu era entretida pelo alento; quando eu aceitava, sem preguiça de buscar compreensões, as importâncias. E as traduzia ao bel prazer da imaginação, fazendo-as caber, deliciosamente, nas entrelinhas dos meus sonhos, transportando-as – com leveza descarada – para a realidade à qual pertenciam.

Quero um mundo embalado por roques, sambas, canções de ninar, assobios; e travessuras de crianças, claro! As travessuras das quais possamos rir de tranqüilidade; que sejam lúdicas e não trágicas como são as das crianças vitimadas pela violência. Educadas por ela.



Um mundo no qual o amor não seja distante, figurando somente na imaginação de criadores de novelas de televisão.


Que haja transgressores determinados a contrariar tal destino; panfletários desse amor que nasce de uma troca de olhar entre estranhos, nas plataformas das estações de metrô; daquele cultivado entre pais, filhos, avós, amigos. O amor pelo semelhante que, através das diferenças, alimenta a igualdade.

Do amor que contempla pequenos e preciosos gestos que descambam em grandes feitos.

Um mundo no qual não dediquem ao amor a autoria de crimes; que em nome de Deus - numa tentativa de mudar a rota da culpa - não sejam praticados atos de intolerância.

Eu quero um mundo de silêncio quebrado pelo choro de felicidade; de reencontro, de catarse e de atrevimento, pois viver requer um tanto dele.

E saiba, meu caro, perco o fôlego fácil: quando nasce uma idéia promissora sobre pendurar em asas de anjo para ganhar uma viagem ao adiante. Ou pelos suspiros... Da criança ao cair no sono; do alívio em saber de quem se esperava notícias; dos amantes entretidos num abraço.

Suspiros me fazem perder o fôlego.


Imagens: Maurício Elóy>>http://lojasdecanelaartesvisuais.blogspot.com


www.carladias.com

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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, que esse mundo querido seja seu. :)

Marisa Nascimento disse...

Carla, que suspiros como os que encerram o seu texto existam sempre na sua vida e motivem você a viver e escrever sempre mais.

albir disse...

Carla,
que seus quasares e nebulosas nos atazanem e colidam conosco freqüentemente;
que caibamos na barriga de suas grávidas e
que suspiremos até perder o fôlego.

Carla Dias disse...

Eduardo: espero que muitos de nós o encontremos.

Marisa: obrigada, Marisa. Já pensou? Uma sinfonia de suspiros?

Albir: Amém.