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CONTRADIÇÕES DO AMOR [Debora Bottcher]


Ele já não era tão jovem quanto se podia supor, nem tão velho quanto parecia. Tinha o olhar vago, distante, que tentava entrever além do alcance qualquer coisa que ninguém compreendia. Dificilmente sorria: mantinha os lábios cerrados, falava pouco e, quando o fazia, a voz soava mais como um murmúrio, sussurro dolorido quebrando a harmonia.

Vivia ali há muito tempo... Fumava cachimbo e podia ser visto todas as tardes amparado na janela, admirando o crepúsculo, o vazio imenso ao seu encalço.

Eventualmente contava histórias aos mais jovens e ela, por inúmeras vezes, viu-se sentada nas escadas do prédio onde moravam, absorta em suas palavras tristes que raramente vestiam-se de alguma satisfação. Momentânea: instantes em que a brevidade deixava divisar um minúsculo brilho.

Ele se movia pelos vales da dor e da saudade com suave maestria. Conhecedor das sensações que abatem nossas almas de forma definitiva, aquele era um território pelo qual ele passeava sem dificuldades.

Era um homem só e isso a intrigava: a solidão inerente, uma imposição ingrata a si mesmo. Um dia, questionou. Ele a olhou longa e silenciosamente, agonia e amargura brincando em seu semblante.

Depois, vagarosamente, repetiu a história que todas as tardes contava aos ventos.

Na imensidão de um tempo em que ele ainda pouco sabia da vida, assistira seu destino ser traçado por outras pessoas. Ele se perdia de suas emoções, nunca sabia exatamente o fundo de seus desejos, e via a interminável rotina do inevitável se abater sobre os dias. Tudo corria num ritmo frenético demais e ele acabava por acatar decisões das quais sequer tinha participado.

Teve um filho, seu maior legado: a pureza verdadeira, expressão real das coisas importantes.

O Universo ditava as leis e ele as seguia, quase autômato, até que repentinamente seu interior se rebelou: havia muita coisa ainda a descobrir, muito a desvendar... Sua alma começou a trilhar os abismos obscuros da ansiedade negra. Ele precisava de algo a que se agarrar.

Partiu, cheio de culpa, causando estardalhaços, mas finalmente capaz de andar com as próprias pernas, fazer suas próprias escolhas.

A vida lhe doía, lhe fez entrever o precipício do medo, do desejo de voltar para a segurança que conhecia, mas ao mesmo tempo, um oculto mágico estava por trás da porta, e tal como criança, era preciso correr o risco de simplesmente girar a chave a abri-la. E quando o fez, a magia se instalou.

Conheceu os segredos do mundo e cruzou o portal da vida de muitas mulheres. E dentre tantas, uma.

Assustou-se. Ela chegara mansa demais, sem qualquer alarde, nenhum ruído, sem exigências. Trazia o riso franco, a risada gostosa, generosidade e carinho sem limites. Chegou semeando o aconchego das noites na palma das mãos, silêncio e alegria tal como ele jamais julgou alcançável. Temeroso da descoberta, apavorado com as possibilidades de sofrimentos infundados, a afastou de sua vida. Nunca soube explicar por que fizera isso...

Quando deu por si, tentou, em vão, retomar o curso que havia se rompido com traição e mentira. Mas ela, recolhida em sua mágoa, pôs fim ao que realmente podia ter mudado suas vidas.

Continuaram amigos e cada vez que a encontrava servia apenas para fazê-lo constatar o inevitável: ela era a mulher que ele esperara, procurara, buscara desde sempre imaginando jamais existir, e era amargo saber que a perdera no insuperável abandono de seus erros.

Teve outras mulheres, muitas. Contudo, nunca mais soube o que era plenitude, e ao compreender o invisível, desistiu. Desistiu de si mesmo, dela e de tudo o mais. Apenas seu ofício e seu filho importaram por longos anos.

Agora vivia a mercê das esperas, uma esperança remota de que a imensidão do tempo mudasse o que a juventude e suas apaixonadas reações não foram capazes de transformar.

Há muito não tinha notícias daquela mulher, mas imaginava-a perdida em suas lembranças, e talvez sua memória o alcançasse. Ela o havia amado - ele não tinha dúvida. Por isso, permanecia no mesmo lugar: para o caso dela voltar. Até lá, silêncio, saudade e solidão seriam seus companheiros...

Uma lágrima quente rolou pela face clara da menina que o ouvia. As mãos que um dia acolheram e rejeitaram o amor, tocaram seu rosto num gesto delicado e a voz rouca, num gemido sofrido, pediu que estivesse atenta para não deixá-lo escapar quando lhe interpelasse o caminho. A voz da sabedoria, na tarde infinita que morria dentro da noite, contava que isso acontece uma única vez...

Expressões Letradas

Imagens: French Singer and Composer Singer Guy Beart, Jacques Haillot; Couple Sitting on Rock, Ant Strack; Heart Shaped Leaves in Stream, So Hing-Keung

Comentários

Marisa Nascimento disse…
Debora, teria tanto para escrever sobre o retrato que você acabou de pintar tão bem...mas prefiro apenas fechar os olhos e abraçar meu gato que mia e implora por carinho aqui no meu colo...
É, Debora, parece que você está se especializando em entrar na alma masculina. Seus passos suaves fazem linda música em meu interior. :)

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