segunda-feira, 14 de abril de 2008

CANÇÕES, ESTÉTICA E NOSTALGIA >> Albir José Inácio da Silva

Já não ando distinguindo bem o que gosto por gosto mesmo do que gosto por nostalgia. Como me habituei a freqüentar certo tipo de música, as pessoas dizem que não gosto disto ou daquilo. E lembro-me de que realmente não gostava, mas agora não tenho mais certeza. Se me enternece uma canção, já não sei se é por suas qualidades intrínsecas ou porque suas asas me transportam a um terno momento da vida. Mas nem sempre foi assim. As certezas foram me abandonando na medida em que eu procurava por elas.

Comecei gostando da música que ouvia na infância. Sertanejo, Gonzagão, Ângela Maria, Caubi, Emilinha e quem já não me lembro mais.

Passei a ignorá-los quando vieram Roberto Carlos, Wanderley Cardoso, Wanderléa e demais alistados da jovem-guarda.

Não conheci a bossa-nova, que na época era muito erudita pros meus ouvidos.

Num dado momento, umas aulinhas de inglês no ginasial, a repressão desencadeada contra a cultura nacional e a conseqüente abertura das rádios às nações “amigas” me fizeram adorar qualquer coisa que, cantada, eu não entendesse. Ouvi rádios, comprei discos e copiei letras que não entendia, mas desejava. Os Beatles já se separavam quando eu comecei a ouvi-los, a decorar suas músicas e a sonhar com Londres e Nova Iorque. Isso me fez renegar tudo que se cantasse em português, com exceção de uns hinos religiosos por compromisso de salvação e medo do inferno.

A universidade chegou abruptamente trazendo política, MPB e finalmente a bossa-nova. E agora eu odiava sertanejo, jovem-guarda, ufanismo e tudo que não fosse em bom português, acometido que fora por uma ziquizira que me empolava toda vez que ouvia qualquer coisa que lembrasse a fala ianque. Dessa vez nem os hinos se salvaram porque o inferno era a ditadura. A própria bossa-nova perigava de excomunhão porque, não suficientemente engajada, falava de amor, de sol, de mar e de outras veleidades. Por fim, coloquei sob suspeita a MPB porque nem sempre se mostrava combativa. Eu me emocionava às vezes com umas coisas melosas e tristes, mas, passada a fraqueza, avaliava a perda de tempo revolucionário. Cantei, então, só Vandré e a Internacional. Não cantei carnaval porque, junto com futebol, era ópio do povo. É bem verdade que tive várias recaídas, e acabava cantando alegria, paz e amor e hare krishna.

A ditadura começava a dar sinais de cansaço e eu desistia das armas que nunca empunhei porque já tinham sido presas juntamente com seus portadores. Também porque trabalhava de dia e estudava de noite e só com isso já ficava muito cansado. Agora eu cantava de novo bossa-nova, sol e mar, areia e beijinhos. Também já me permitia cantar o amor da MPB e não só o lamento e a indignação. Até umas frases em inglês eu desafinava meio sem graça. Viva a arte – eu dizia - porque a fome, a miséria e a exploração vão continuar existindo, e como disso já não dá mais conta a religião - viva a arte!

De súbito me achei sabendo de estética. E ficava veemente dizendo que isso era bom e aquilo ruim. Seletivo e exigente, sabia do que gostava e por que gostava. O bom e o ruim eram dogmáticos. Eu não sabia nada de música e poesia, mas estética era uma verdade absoluta que a mim fora revelada.

Depois a vida teve a paciência de me constranger a alguma humildade. Já gosto porque gosto e não mais por um milhão de arrogantes motivos que tenha de declinar. Estou em paz. Consigo ouvir com gosto tudo aquilo que ao longo da vida fui gostando ou detestando. Mas, repito, quando me emociona uma música já não sei se é por senso estético ou por nostalgia.

Quem sabe a estética engloba a nostalgia? Ou quem sabe a estética me englobe também, leitor, e eu fique feliz mesmo sem saber de nada? Quem sabe o gostar me basta?

Quem sabe, por favor, diga-me!

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3 comentários:

Debora Bottcher disse...

Ah! Também não sei... Mas foi outro dia que me peguei enxugando uma lágrima ao ouvir, de repente, presa no trânsito caótico dessa São Paulo, uma música antiga, da qual eu sequer me lembrava. Não sei se foi nostalgia ou desespero - por estar presa ali, no meio daquele turbilhão. Fato é que o som me remeteu à alguma coisa que eu não soube definir. Nem entender... Mas pra que entender, afinal? A gente muda toda hora... E a música é só mais uma forma de expressão - do coração, do corpo, da mente, quem sabe até da alma (antiga ou nova, refeita todo dia.) :)
Beijo grande.

Marisa Nascimento disse...

Albir, esta sua frase, para mim, diz por si só: "Quem sabe o gostar me basta?" Somos uma mistura tão grande de tudo, não é? Já achamos que podíamos consertar todo este mundo. Acho que é bom chegar num resultado de cálculo simples em que o produto somos NÓS puramente.
Beijo

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Albir, lembrei da canção do Lulu Santos: "as canções mais tolas, tendo seus defeitos, sabem diagnosticar o que vai no peito". Penso que é isso que importa: entregar-se à música que toca o nosso coração.

Bela crônica, um verdadeiro flashback biomusical! :)