E AGORA? >> Albir José Inácio da Silva

 

                                       DEPUTADO

 

Desabou! Enquanto a briga era com os parentes ou com os adversários no plenário, eu administrava bem. Mas viramos excrescência aos olhos do mundo. O barco está afundando, e tenho medo de afundar com ele.

 

Não estou sozinho, somos alguns homens de bem nesta encruzilhada. Já não durmo, não como direito, adoeço a olhos vistos. Não sou isso que andam dizendo. Posso ter me enganado, mas não sou o único nem o último.

 

Verdade que no passado apoiei a ditadura porque era consenso que os comedores de criancinhas ameaçavam o mundo.  Mas divergi quando começaram as cassações, as torturas e os assassinatos. Nunca tive inclinações fascistas, apoiei a redemocratização e votei a nova carta.

 

Um parlamentar tem de sentir a temperatura das ruas. O povo não estava feliz. O tal do bolsaesmola, além de humilhar o cidadão, que ficava preguiçoso, inflacionava o mercado de trabalho. Já não se achava uma secretária para os serviços domésticos, ou pediam uma fortuna, além dos encargos trabalhistas. Parecia até que não eram tratadas como pessoas da família!

  

E foi por isso que apoiamos. Verdade que logo apareceram os sinais. Discurso de Goebbels, fantasias da Klan, saudações nazistas, gestos supremacistas, copos de leite em reuniões da cúpula. Também ficamos incomodados, mas não podíamos abrir mão das mudanças prometidas.

 

Não concordei com as ameaças ao Supremo e ao Congresso. Sou um democrata. Mas eles estavam passando dos limites e a voz do povo é a voz de Deus. Era só um puxão de orelhas. Ninguém fecharia nada.

  

Passado o dia da pátria, com suas ameaças e bravatas, veio a humilhação definitiva. Um cálice de vinagre e fel, em dez pontos de rendição, que vai da reverência ao inimigo até a completa capitulação. E termina, para nosso desespero e embaraço, com o lema fascista: Deus, pátria, família!

 

Nada ia bem, nenhum resultado, preços disparando, juros subindo, inflação aumentando, dólar nas alturas. Notícias de corrupção, nepotismo, fraudes em compras de vacinas, favorecimento.

 

Mas talvez ainda pudesse ser corrigido, não queríamos admitir o fracasso. A insônia chegou quando começaram as prisões. Um corre-corre pra apagar postagens nas redes, lágrimas, pedidos de clemência, enfermidades, paralisias.

 

Antes éramos imbatíveis, tão à vontade, valentes, desafiadores, altivos. De repente, cadeia, tornozeleira, fuga do país, o inferno! E o pior: todos cidadãos de bem!

 

A situação do país parece que vai mudar dentro de alguns meses. Terra arrasada, mas o pesadelo vai passar.  Eu não quero mais brincar disso. Muitos anos de mandato não podem acabar assim.

 

Só não sei se consigo recuperar a reputação. Houve colegas que denunciaram aliados fascistas e corrigiram o rumo, fazendo inflamados discursos libertários. Preciso fazer um mea culpa dramático e choroso, que funcionou nos meus apoios a Collor e à ditadura.

 

Mas me preocupa a maldita internet, que não existia naquela época. Essa mesma que nos garantiu a vitória nas últimas eleições pode agora significar a nossa sepultura. As redes guardam todo tipo de maldades, fotos comprometedoras, conversas, vídeos.

 

Temo passar à posteridade como apoiador do fascismo. O que dirão de mim os livros de História? E os meus netos?


(Continua em 07/03/2022)

Comentários

Nadia Coldebella disse…
Parece que seu personagem está narrando um Game of thrones tupiniquim. Fica desse lado, troca para outro, volta praquele...

Depois vc fala que são meus textos que não te deixam dormir. Quero ver como eu vou dormir essa noite, sabendo de tudo o q vc conta aí. A noite escura se abateu sobre nós...

Sensacional!
Zoraya Cesar disse…
Dom Albir e seu doce-amargo. Esse nao teve pitadas de ironia, mas carradas de possibilidades reais. No jogo político não há santos, mas, demônios sim, aos montões.
sergio geia disse…
A que ponto chegamos, amigo Albir. Primeiro no descrédito da classe. A cada dia eles dão sinais para que continuemos a desacreditar (meu lado esperançoso diz que há ainda gente decente no meio). Segundo: o mundo está ao contrário e ninguém reparou. É duro quando a gente encontra pessoas "do bem" apoiando um genocida e incompetente. É duro. Forte abraço, querido. 2023 renovará as nossas esperanças.
Albir disse…
Obrigado, Nádia, Zoraya e Sérgio! Que 2023 venha nos redimir.

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