PERDE-SE NELAS >> Carla Dias


Não as teme há tempos. Não se acostumou a elas, porque não veio ao mundo para servir ao autoflagelo. No entanto, compreende que não há como evitá-las. Há dias em que elas o fazem engasgar. Há outros em que ele consegue passar sem pensar nelas. São os melhores. Quando ele quase consegue sentir o gosto do contentamento na boca, no olhar, na pele. Chega a pensar o futuro com certo desembaraço.

Ele tenta. Esforçar-se para não se render completamente ao comando delas é exercício diário. Contudo, sabe do próprio atrevimento. Há dias em que se cobra por tamanho descaramento, porque ambicionar com tal afinco o que ambiciona é quase ignorá-las por completo. Acontece que é incapaz de evitar esse tempo breve de devaneio. Nem se trata de felicidade imaculada, inalterável. É apenas um assombro provocado por ela. Um arrepio na nuca. Uma taquicardia de menos de um minuto de duração. Um alento provisório.  

É um desafio cotidiano conviver com elas. Não está em seus planos se retirar. Gostam de permanecer e se transformar: a carteira, as chaves, o emprego, o encontro, a hora do remédio. O amor de uma vida, a vergonha, o respeito. É difícil não pensar nelas. São as linhas de expressão, as expressões distorcidas para caber em declarações deturpadas. As guerras aquecidas pelo ego, pelo jogo de palavras. As evasivas recheadas de diretas de inflamar crueldades. As insanidades povoadas pela logística que enriquece uns e mantém outros debaixo dos escombros das tragédias.

Ele sabe que elas costumam começar feito pequenos ruídos, mas evoluem. Que gostam de enfeitar suas trajetórias com dores de ecoarem para sempre. Respeitar as perdas é custoso e muitas vezes o mantém preso em despedidas que não consegue finalizar. 

Há dias em que a fuga é impossível. Perde-se nelas. 

Imagem © Gerd Altmann por Pixabay

carladias.com



Comentários

Nadia Coldebella disse…
Eu fico pensando: e se uma manhã eu acordasse sem obrigação nenhuma? Sem nada mesmo. Nenhum dever, nada que eu tenha q fazer. Uma completa anarquista. Será que eu conseguiria viver com isso ou passaria o dia deitada na cama para não ter que confrontar quem sou esvaziada de tudo?

Acho que sou uma escrava das obrigações e as vezes a fuga é se jogar nelas...

Como sempre, texto intenso e certeiro.

Gde bjo!!
Zoraya Cesar disse…
Carla, esse texto é tao cheio de significâncias, simplesmente não há UM texto seu que seja sem profundezas da alma. Ler vc é um exercício de autoconhecimento, de olhar pro mundo e se perder nas incertezas. E sempre lindos, os textos, né? Tsc tsc
sergio geia disse…
Seus textos, Carla, são sempre profundos e de múltiplos sentidos. Descobri-los não é tarefa simples e, às vezes, requer uma segunda leitura, quiçá, uma terceira. E tenho a impressão que nem sempre o sentido do leitor é o mesmo do autor. Mas acho que isso é assim mesmo, e por isso escrever é uma delícia. Desse vez extraí a carga pesada do cotidiano. Se foi isso o sentido do autor, ótimo. Se não foi, melhor ainda. Agora só você mesmo para dar esse tratamento metafórico ao que quer passar, só você. Beijos!

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