EU VOLTAREI, QUERIDA >> Zoraya Cesar

A casa estava às escuras. Assim como a rua. O céu. Tudo. Mas eu enxergava perfeitamente, tal uma suindara. De qualquer maneira, mesmo que não enxergasse, tanto fazia. Conhecia aquela casa melhor que a palma da minha mão. Conhecia-a melhor do que à minha cara-metade.

Minha cara-metade. Minha cara esposa. E põe cara nisso. Para Mishka, só do bom e do melhor. Perdi a conta do número de vezes que me endividei, trabalhei dobrado, até falcatruei, menti, roubei, prejudiquei inocentes para poder pagar os caprichos dela. Mas ela era linda mesmo. Vocês precisavam ver a inveja que despertava. Nas mulheres, por não serem nem tão lindas nem tão ricas e cercada de luxos como ela. Sem falar que sempre fui um marido amoroso e atento. E os homens me invejavam do céu ao inferno, porque eu tinha dinheiro para bancar aquela formosura sexy e gostosa. E que, ainda por cima, era toda carinhosa, bajuladora, senhora absoluta do meu pau e do meu coração. Éramos felizes. Ou, ao menos, eu era. Nunca tive motivos para pensar que Mishka sentia diferente. 

A casa estava exatamente como eu a deixara. Fiquei impressionado por ainda sentir os cheiros! Vocês já tiveram essa experiência? Passar um tempo fora de casa e, quando voltam, conseguem distinguir os inúmeros e diferentes cheiros que uma casa tem? Um cheiro particular de poeira, de coisas guardadas, a cebola na cozinha, o desinfetante do banheiro, o odor de uma infiltração e, principalmente, o cheiro de cada habitante da casa gravado nos travesseiros, nos estofados, nas toalhas de banho. Você consegue reconhecer quem sentou ali, de quem era a toalha, quem dormia de que lado da cama. Fiquei tão assombrado que me pus a vasculhar e farejar cada canto, um perdigueiro a identificar os odores. (Fiquei tão assombrado… hahahaaha.)

Mas, como dizia, antes de ser agradavelmente interrompido por meu olfato, eu era feliz. E, sinceramente, continuo acreditando que Mishka também o era. Eu a amava muito. Tanto que, repito, fiz coisas condenáveis, social e moralmente, para mantê-la satisfeita. Cheguei mesmo, e digo isso com desassombro (hehehe, estou terrível hoje. Talvez por ser meu primeiro dia, estou entusiasmado), a incriminar um de meus sócios para me ver livre de um desvio que eu havia feito. Ah, também traí meu melhor amigo, a fim de levar vantagem em um negócio que me rendeu muito dinheiro (e que foi rapidamente gasto por Mishka, claro).  Enfim, santo nunca fui. Mas o tudo o que fiz, fiz por amor. Amor pela mulher da minha vida, de todas as minhas vidas. 

Tergiverso. Vocês já devem estar se perguntando o que estou fazendo numa casa com as luzes apagadas, o que estou fazendo na casa que um dia fora minha e agora, a partir desse momento, será, de novo minha, enquanto Mishka aqui viver. Para dizer a verdade (pois na situação em que me encontro, mentiras não fazem mais sentido) minha casa será onde ela estiver. E assim será por toda a eternidade, pois tenho certeza que, ao morrer, ela irá para o inferno, que nem eu. Mas, antes disso, eu ainda quero me divertir muito. 

Cheguei ao quarto. Ah, Mishka, eu não preciso de luz ou miolinhos de pão a me mostrar o caminho para seu corpo. Seu cheiro sempre foi inebriante e irresistível, atraente como o odor de uma Drosela para os insetos. E igualmente fatal. Ah, Mishka, tão pouco tempo separados, e eu já morto de saudades (‘morto’ de saudades… estou impossível hoje). 

Olhei longamente seu corpo carnudo, moreno, as marcas do biquíni mínimo que ela costumava usar sobressaindo na escuridão do quarto como feixes de luz. Ela ressonava, dormindo o sono dos justos. Aliás, permitam-me fazer uma pequena reflexão: não sei de onde tiraram essa ideia de que os justos dormem bem – talvez porque, teoricamente, não devem nada, portanto, têm a consciência tranquila. Balela, estupidez, falácia, bom mocismo besta. Na verdade o sono dos justos é entrecortado de preocupações com a injustiça, com os desvalidos, o que for. Sono bom é que não é! Querem saber quem dorme bem? Pois vou lhes dizer: os ímpios, os safados, os traidores, enfim, os vilões. Estes sim, têm a consciência tranquila de quem fez o que deveria fazer, de quem foi fiel à sua natureza. Eu, por exemplo, sempre dormi bem. Mishka também dormia, sempre bem demais, parecia um anjo. E naquela noite não era diferente. Sua ronqueirinha parecia um motorzinho de barco, longínquo e suave, quase uma cantiga de ninar. Mas eu, eu estava sem sono. Nunca mais saberia o que era dormir em paz. Por isso, ela também não. 

Puxei sua perna até que acordasse. Quando ela despertou, assustada, olhando inutilmente na escuridão, eu gritei o som apavorante da suindara seguido do chamado de acasalamento da raposa vermelha, que causam arrepios nos mais valentes. Repeti e repeti, o som ecoando nas paredes do quarto e ribombando nos ouvidos de  Mishka, que se esgoelava aos berros de pavor, balbuciando meu nome, os olhos esgazeados.

Sim, querida, sou eu. E voltarei para você todas as noites. E puxarei seu pé, interrompendo seu sono, e gritarei em seus ouvidos alto e apavorante, não importa quantos soníferos você tome, quanto álcool você ingira, quantas luzes estiverem acesas, quantas pessoas ao seu lado. Vou voltar e vou te acordar e vou entoar o canto da suindara e gritar como uma raposa vermelha até você enlouquecer. Porque você, desgraçada, me matou por pura cobiça, para ficar com meu seguro de vida, não lhe bastava eu te dar tudo do bom e do melhor, te dar meu sangue e minha alma, você quis minha vida também. Sim, vou te assombrar até você enlouquecer e depois, quanto você morrer, nos encontraremos no inferno. E lá continuarei minha vingança até chegar o dia do juízo final, que não será salvação para nós, eternos condenados, presos para sempre nessa roda de amor, ódio e vingança. 

Até amanhã, querida. 

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Aqui, o canto da suindara, também conhecida no Brasil como rasga-mortalha. E o grito da raposa vermelha. Ambos, ouvidos no escuro e o espectro da culpa rondando, podem ser bem assustadores para as almas mais fracas. 




Comentários

branco disse…
as férias te fez bem. retorno com um conto imprevisível e coberto de nuances ( que poderão passar despercebidos aos menos atentos),e isso só aumenta e comprova a qualidade da autora.
Unknown disse…
Amei. Amei. Nada como um morto decepcionado para temperar uma história!
Anônimo disse…
Interessante. Mas faltaram detalhes da morte do idiota apaixonado! Vai ter um
"conto bônus" com isso.
Marcio disse…
TESTE SURPRESA: INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

1) Por que a autora usou o termo “suindara”, no lugar do banal “coruja”?

a) Para demonstrar erudição.
b) Para ensinar algo a seus leitores ignaros.
c) Para estar ao nível de seus leitores eruditos.
d) Para ganhar uma estrelinha da tia Maria Rachel na margem do caderno.
e) Para dar ensejo a um comentário cretino do Marcio.


2) “E que, ainda por cima, era toda carinhosa, bajuladora, senhora absoluta do meu pau e do meu coração.” A frase transcrita permite concluir que:

a) O pau vem antes do coração.
b) O narrador só quer saber de safadeza.
c) Mishka era tão irresistível, a partir da atração física, que o panaca do narrador acabou se apaixonando por ela.
d) Mishka era doce e ingênua, mas o narrador tinha outras intenções.
e) Antes que o texto termine, o narrador estará falido.


3) Ao mencionar os cheiros da casa, a autora demonstra que:

a) A memória olfativa é um elemento de conforto psíquico.
b) O recurso à sinestesia dá ao leitor uma experiência literária mais profunda.
c) Alguém não deu descarga no vaso sanitário, antes de sair.
d) A coleta de lixo está atrasada.
e) Aquela pasta de atum foi deixada fora da geladeira.


4) No trecho “(...) Olhei longamente seu corpo carnudo, moreno, as marcas do biquíni mínimo que ela costumava usar sobressaindo na escuridão do quarto como feixes de luz”, pode-se perceber que:

a) Mishka, como o nome sugere, nasceu em Chernobyl, ali por volta de abril de 1986.
b) O quarto não estava tão escuro assim.
c) O narrador usava óculos de visão infravermelha, o que é bem esquisito.
d) Esse narrador estava doidão e é bem tarado por Mishka.
e) Mishka andou comendo algo que lhe fez mal à pele.


5) O narrador, ao imitar a suindara e a raposa vermelha, revela que:

a) É um dos leitores eruditos da Zoraya.
b) É o Al Jarreau.
c) Não tem o menor apreço pelo sono de seus vizinhos.
d) Deve ser mais desafinado do que a Xuxa.
e) É assinante do Animal Planet, no Discovery Channel.






Méri disse…
Nossa! Adorei. Zô, você é realmente uma excelente contadora de estória.
Live Long (sem os gritos da raposa ou da suindara!) and Prosper, ny friend.
Méri
Maria Puigbonet disse…
Respostas às suas perguntas:
1. B (eubaprendi algo)
2. A, B e C (kkkk)
3.A e B - a memória olfativa de fato afeta o estado mental; and, synesthesia definitivamente ajuda the reader's immersion in the story.
4. B
5. A (kkkkkk)
Méri
É por isso que eu amo e estava morrendo de saudade! Zoraya ataca novamente e a galera vibra!
Érica disse…
Kkk adorei a narrativa feita lá do lado das trevas

O outro lado da moeda nunca dantes mostrado hehehe
Carla Dias disse…
O que ficou pra lá de claro pra mim com esse texto:

- Dormir será sempre um problema pra quem tem problema pra dormir.
- Esse negócio de puxar o pé à noite me causa pânico, sempre.
- O grito da raposa vermelha é meio assim, mas a carinha dela... ah, fofa, né? Já o canto da suindara, ela é linda, mas me deu uma agonia. Eu não escutaria o disco dela.

Zoraya, Zoraya...
André Ferrer disse…
Você também voltou! Bichos bons para serem arremedados por espíritos erráticos. Anotei aqui. Rsrsrs!
Albir disse…
Você é especialista nesse negócio de acabar com noites de sono, né, Zoraya? Lá vou eu pra mais um ano de vigília!
Zoraya Cesar disse…
Gente... agradecida e envaidecida demais!

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