DESLEMBRAR >> Carla Dias


Nada de andar por aí. Nem mesmo celebrar pequenas conquistas, apesar de reconhecer a importância de cada uma delas ao observá-las confraternizando no armário do aprazimento.

Há quando a necessidade é de remoer o evitado.

Pairo nesse céu de seres sublimados e obsoletos, de cordéis arremessados aos famintos de explicações. Qual o significado de amar os odiados e odiar os amantes? Para que serve as itinerantes emoções que consideramos determinantes para afirmar quem somos?

E dos engasgados pela solidão do não reconhecimento, aprendemos o quê?

Às vezes, desespero de jeito que nem me reconheço e remexo em histórias vividas. Eu me demoro naquelas das quais ainda não consegui me desfazer. Ninguém recomeça, não do zero, como alguns dizem. Não há zero. Depois de nascido, não há zero.  Nem depois da morte há zero para recomeço.

Você acredita que sim, mas eu não consigo me imaginar sendo outro alguém antes de quem sou agora. Uma repetição, um looping ao gosto do universo.

Peço apenas para que nem tente rezar suas gentilezas nos meus ouvidos. Não desperdice seu afeto comigo. Meu espírito anda desinteressado nas repetições, seja em nome das obras do divino ou para o desfrute dos mundanos. Tornei-me esse alguém que corre em círculos para se aquecer. Refaz caminhos para não se esquecer que deseja não se lembrar.


Imagem © Engin Akyurt por Pixabay

carladias.com

Comentários

Nadia Coldebella disse…
Emoções itinerantes tidas como constantes o suficiente para fundamentar qualquer decisão? Recomeçar do zero? Saber para onde se vai? Que fraude somos...
Você se debruça sobre a questão existencial "quem sou eu?" e é interessante como vc acaba desnudando as pretensões e vaidades desse mundo onde nada é permanente.
Texto profundo, para se ler três vezes e absorver as sutilezas.

Grande bjo, Carla querida!
Sandra Modesto disse…
" tornei- me esse alguém
que se faz em círculos para se aquecer"
Lindo isso. O texto todo é emocionante.
Zoraya Cesar disse…
"Ninguém recomeça, não do zero, como alguns dizem. Não há zero. Depois de nascido, não há zero. Nem depois da morte há zero para recomeço"

Mais um clássico da Princesa das Palavras! Texto curto, mas devastador. Temos de ter cuidado ao te ler, pq vc desvenda e desfolha camadas nossas que passamos os dias a esconder. Aí vem você e...
branco disse…
sem gentilezas... você sabe o que acho de seus escritos.
sergio geia disse…
"(...) remexo em histórias vividas. Eu me demoro naquelas das quais ainda não consegui me desfazer" Ai ai ai... Sou eu...
Albir disse…
"Você acredita que sim, mas eu não consigo me imaginar sendo outro alguém antes de quem sou agora."
Uau!

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