segunda-feira, 27 de abril de 2009

ATCHÓINC >> Maria Rachel Oliveira

A epidemia começou quando a primeira pessoa espirrou e, ao mesmo tempo, curiosamente, se deu conta que não reagia como queria às coisas; mas sim como achava que deveria – o que faz uma grandessíssima diferença. A OMS (Organização Mundial de Saúde) ainda não diagnosticou se o agente causador da epidemia é uma mutação genética do vírus Procrastinum Crônico Culpus – originado da igreja católica, ou se há a possibilidade de uma combinação inédita de dois vírus em um só; a saber: História de Autoboicote e Preguiça Mesmo. Fato é que Q. T., a provável primeira pessoa contaminada, tinha, nos minutos subseqüentes ao primeiro Atchim, gostado muito da videoaula de alongamento que tinha assistido – e feito – via Youtube e prometera a si mesma – realmente – estabelecer uma rotina. Transmitido por uma forma ainda desconhecida pela OMS, tudo indica que a infectada subseqüente tenha sido I.B., a professora de Power Stretching que vestia um collant rosa shocking, cujo vídeo foi publicado no Youtube à sua revelia.

– Eu realmente cheguei em casa mais feliz naquele dia, e, depois de espirrar, por alguma razão que não consigo entender, acabei dando um beijo de boa noite no meu marido e em cada um dos meus filhos – conta I. B., que há muito tempo havia estabelecido uma rotina em que não se tinha tempo para nada, especialmente para as coisas mais importantes.

A rotina da família da professora I. B., parece, mudou muito desde então. Em poucos minutos, todos em sua casa espirravam e, também, conversavam – coisa que não faziam “não me lembro nem desde quando”, disse o marido J.B. que, de tanto resmungar em resposta às coisas, tinha se esquecido da última vez em que isso teria ocorrido.

Em menos de duas semanas o vírus mudava, com um simples espirro, todos os que estavam a menos de 3 metros do agente-transmissor. E a OMS estima que em aproximadamente 4 meses a população já sorriria mais vezes por dia.

-- X --

Essa seria a crônica que Rachel gostaria de escrever. Mas a realidade é que, desde semana passada, não se fala em outra coisa que não as epidemias de picaretagem, com ênfase nas passagens emitidas – até pelo Gabeira! – e na gripe suína, uma espécie de gripe forte e que causa morte em pacientes jovens e aparentemente saudáveis, com idade entre 20 e 50 anos.

Nesse último caso, a autora não consegue deixar de pensar numa espécie de ironia divina. Os que ainda não tem 20 talvez ainda tenham chance de crescer diferente da vara. Os que já passaram de 50 talvez não mudem porque já têm injetada na veia as dissonâncias de caráter – mas talvez, por não procriarem, o Criador tenha considerado que não fazem tão mal assim à humanidade e decidiu poupá-los.

Só duas coisas não encaixam:
- O Gabeira não tem mais de 50 anos?
- O espirro da gripe suína faz ‘Atchóinc’?

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Rachel, adorei a primeira parte da crônica. Você bem que poderia ter me poupado da realidade. :)

rm disse...

Rss

Muito bom, como já se habituaram seus leitores. Posso recomendar a leitura no bloguinho dos venenos?


Quanto ao mérito:

1) YouTube é uma epidemia tão chata quanto outra qualquer.

2) Gabeira deu uma senhora pisada na bola. Vai custar caro para eventuais pretensões políticas que ainda tenha.

3) O som do espirro deve variar com a raça, tamanho, idade e sexo do porco... Mas no fim muda nada: continuam chafurdando na lama...