quinta-feira, 30 de abril de 2009

O melhor da Disney >> Kika Coutinho

Eu tinha cerca de 10 anos quando uma das minhas melhores amigas, filha dos meus padrinhos, anunciou que ia pra Disney. Foi uma alegria. Ela completou dizendo que a mãe dela, minha madrinha, queria levar-me junto. Houve um movimento em casa, uma falação. Minha madrinha ligava, meus pais tentavam, mas tinha uma coisa de visto, uma coisa de quarto, uma coisa de dinheiro que, no final, não deu certo a minha ida. Ela iria, minha grande amiga iria, e estava feliz por isso.

Embora eu a visse radiante, eu sabia que ela queria que eu fosse também e, talvez por isso, eu não me sentia triste. Meus desejos, na época, eram pequenos e simplórios. Neles, não havia Disney, nem avião. Todo espaço do meu desejo era preenchido por revistinhas da turma da Mônica e umas horas brincando do térreo. Estava bom assim -- como a infância é auto-gratificante, não?

Aconteceu que ela foi, despediu-se de mim e, muito rapidamente, voltou. Chegaram em casa todos, ela e os pais -- meus padrinhos -- poucos dias após terem regressado da Disney. Lembro-me perfeitamente da imensa alegria que senti ao ir encontrá-los, na sala de casa. Quando cheguei lá, por um instante, fiquei paralisada. Ao lado da minha madrinha, que sorria encantadora, havia uma enorme sacola, branca, cheia, lotada de presentes para mim. Na minha lembrança, hoje, a sacola batia no meu ombro, mas reconheço que esse dado pode não ser fidedigno.

Eles me abraçaram, carinhosos, e eu olhava fixo para a sacola. Dentro dela, uma porção de cacarecos. Qualquer coisa como chicletes, orelhas de mickey, chocolates, bonequinhos, chaveiros, brinquinhos, uma infinidade de porcarias faziam o meu coração saltar dentro daquele pequeno corpo. “É pra mim?”, eu repetia o tempo inteiro. “Tudo pra mim?”. E eles diziam que sim, com tanta alegria e satisfação, que eu sentia aquela sala pequena para tamanho encantamento. Eu não me lembro de nada, absolutamente nada de concreto que tinha dentro daquela sacola. Provavelmente, esses brindes não duraram mais de um mês no meu quarto, já farto de brinquedos, mas o olhar de contentamento da minha pequena grande amiga, por detrás dos óculos de gatinho que ela usava, nunca mais saíram da minha memória. Ainda hoje, quando eu penso em dar um presente para uma criança, lembro-me daquela tarde, daquela quantidade de amor que transbordava pelas beiradas, em todos os participantes daquele efêmero momento.
Até hoje, eu não fui pra Disney, mas não sinto dor. De uma forma ou de outra, para mim é muito claro que mesmo sem nunca ter estado lá, há anos, eu já conheci de perto o melhor da Disney...

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela lembrança, Kika. E bem contada como sempre. :)

Marcelo Amorim disse...

Kika, este seu texto serviu de ponto de partida pra um outro que acabo de postar no meu blog.

Catarina disse...

Ana!

ADOREI O TEXTO!!!!!